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segunda-feira, 3 de junho de 2013

ARTIGO - SE NÃO HÁ MEIO AMBIENTE, NÃO HÁ ECONOMIA

Marcus Eduardo de Oliveira

No caminho da prosperidade, as economias modernas devastaram boa parte dos recursos naturais. Em nome do crescimento econômico, a atividade industrial dilapidou os serviços ecossistêmicos (responsáveis pela manutenção da biodiversidade), desfigurando a natureza em várias frentes. Indiscutivelmente, mudanças climáticas foram – e estão sendo – provocadas pelo “homem-econômico”. O objetivo? Fazer a economia crescer exponencialmente produzindo em excesso para atender o consumo exagerado. O resultado? O ambiente ameaçado pelo consumo excessivo. A consequência? Depleção ambiental.

Inequivocamente, produção econômica implica destruição e degradação do meio ambiente. Por si só, isso já é o bastante para orientar à tomada de decisão rumo à elaboração de um novo paradigma econômico voltado às ordens ecológicas; não às mercadológicas.

Se não mudarmos o atual paradigma econômico é a própria economia que cada vez mais se joga no abismo da destruição, tendo em vista que, como bem lembrou Lester Brown, “a economia depende do meio ambiente. Se não há meio ambiente, se tudo está destruído, não há economia”.

Nessa mesma linha de análise, Clóvis Cavalcanti nos diz que “não existe sociedade (e economia) sem sistema ecológico, mas pode haver meio ambiente sem sociedade (e economia)”. “Sem recuperar o meio ambiente, não se salva a economia; sem recuperar a economia, não se salva o meio ambiente”, contextualizou o ecologista norte-americano Berry Commoner (1917-2012).

Embora em seus modelos convencionais a economia tradicional faça questão de não contemplar a moldura ou restrições ambientais, pois a visão predominante do sistema econômico como um todo enaltece loas ao fluxo circular da riqueza, imaginando, com isso, uma economia como sendo um sistema isolado, como se fosse um corpo humano dotado apenas do aparelho circulatório, não há como negar o enorme grau de dependência da economia em relação ao ecossistema natural finito (meio ambiente), uma vez que a natureza fundamental da economia é extrair, produzir e consumir.

É intensa a relação da economia (atividade industrial) com o meio ambiente. Não se pode perder de vista que o sistema econômico é um sistema aberto que troca energia com o ambiente. Nessa troca, recebe energia nobre (limpa) e a devolve de forma degradada (suja).

Portanto, metaforicamente, se a economia é um corpo humano, o aparelho digestivo está aí contemplado, uma vez que recebe da natureza matéria e energia e devolve lixo, dejetos. Reafirmando essa ideia, convém resgatar uma passagem de Nicholas Georgescu-Rogen (1906-94): “o sistema econômico consome natureza – matéria e energia de baixa entropia – e fornece lixo – matéria e energia de alta entropia – de volta a natureza”.

Diante disso, é de fundamental importância subordinar o crescimento aos limites ecossistêmicos, uma vez que crescer além do “normal” é altamente prejudicial ao meio ambiente.

Por isso, o novo paradigma econômico precisa convergir com a ecologia, uma vez que dependemos dessa para nossa própria sobrevivência. O desafio é ímpar: produzir mais (bem-estar) com menos (recursos naturais). Produzir mais qualidade (desenvolvimento), e não quantidade (crescimento).

Decorre daí a máxima de que somos, pois, dependentes do meio ambiente, contrariando assim o discurso de René Descartes (1596-1650) de que “somos senhores e dominadores da natureza”. Por essa ideia do filósofo francês, a economia dilapidadora dos recursos naturais, manejada pelo “homem-econômico”, estaria agindo de forma correta em propagar destruição, poluição e degradação ambiental, uma vez que para gerar riqueza gera-se antes destruição natural.

O futuro da vida – e especialmente, da vida humana – na Terra, dependerá do rumo que se der hoje à economia. Se nosso objetivo maior for pela continuidade da vida de nossa espécie devemos seguir o receituário propugnado por Georgescu-Rogen: “(...) um dia a humanidade terá de compatibilizar desenvolvimento com retração econômica”. Caso contrário, pereceremos.

Marcus Eduardo de Oliveira é economista, especialista em Política Internacional pela (FESP) e mestre pela (USP).


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Artigo: A vantagem de ser sustentável

A sustentabilidade ainda é hoje um termo amplo e diverso, e que por ter como base um tripé de considerações (econômico, ambiental e social) acaba sendo observada com focos diferentes e desta forma distorcida, tendo cada um de seus pilares mais destaque de acordo com o viés do observador.

Este, a meu ver, é um dos principais motivos por trás do mito de que só há despesas na busca pela sustentabilidade nas empresas. Gostaria de destacar o termo busca, pois certamente este é um adjetivo raro a ser empregado em sua plenitude e não conheceremos uma empresa 100% sustentável tão cedo.

Em um relatório recentemente publicado pela MIT Sloan Management Review & The Boston Consulting Group, foi demonstrado que as empresas têm cada vez mais lucrado com a sustentabilidade. No geral, a porcentagem de participantes que reportaram lucros a partir de estratégias sustentáveis subiu de 23% para 37%, e talvez o mais importante, quase 50% das empresas alteraram seus modelos de negócio como resultado de oportunidades surgidas na área da sustentabilidade - um aumento de 20% em relação ao ano passado.

As empresas que estão largando na frente estão hoje estudando suas atividades e tentando equilibrar suas iniciativas nos três campos do tripé. Buscam investir em qualidade de vida de seus funcionários, reduzir os impactos ambientais gerados por suas operações e procuram manter o resultado positivo em suas finanças. O desenvolvimento sustentável está emergindo como a “nova demanda pela qualidade” nas empresas, e se hoje ainda é um diferencial, em pouco tempo passará a ser um pré-requisito, a exemplo da tão conhecida série ISO 9000.

Através de índices econômicos como o ISE da Bovespa, fica mais fácil visualizar a tendência destas empresas em se destacar no mercado e ter suas ações mais valorizadas. Mas, em termos práticos, uma gestão com foco em sustentabilidade busca tornar a empresa mais eficiente. Compreender como suas atividades impactam no meio ambiente e qual parcela disto é desperdício, avaliar o quanto funcionários satisfeitos e comprometidos podem render em produtividade para a empresa em contrapartida a alta rotatividade e desinteresse em evoluir junto com o negócio, também fazem parte.

Estes são exemplos de um trabalho de conscientização muito maior que permeia a busca pela sustentabilidade. Uma das ferramentas de empresas que estão neste caminho é a elaboração do inventário de emissões de gases de efeito estufa (GEE), o qual faz um raio-x das operações da instituição e demonstra em indicadores e números absolutos o quanto de CO2 é gerado por unidade de produção. Com este controle a empresa consegue definir metas para emitir menos GEE e consequentemente consumir menos energia (combustíveis ou eletricidade) sendo esta uma das principais fontes de emissões de CO2 em uma indústria.

Seguindo nesta linha de raciocínio fica clara a relação de diminuição de custos, busca pela eficiência e redução no impacto ambiental. E em um mundo cada vez mais conectado, tratar das questões sociais como respeito aos funcionários e atenção com a comunidade em seu entorno são iniciativas que quando positivas rendem alguns comentários, mas em casos negativos se espalham como vírus na internet, deixando claro o custo de não cuidar desta haste do tripé. Com equilíbrio, ganha a sociedade, a empresa e principalmente o meio ambiente.

Henrique Mendes é bioquímico pela UFJF com MBA em gestão ambiental pela FIT. Gerente de Negócios da www.neutralizecarbono.com.br e Consultor na www.greendomus.com.br.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Artigo: Quanto vale a sustentabilidade?

Volta e meia nos defrontamos com um texto sobre sustentabilidade. O mais comum é algum tema relacionando sucesso empresarial à preservação do meio ambiente e recheado de ingredientes como empreendedorismo, inovação e respeito ao próximo. Ao terminar de ler fica aquela sensação agradável de quem acaba de ler uma ficção. Então, fecha-se o jornal e voltamos à realidade. Assim, a forma como se consome o tema sustentabilidade é tão prazerosa quanto fictícia.

Essa é uma armadilha comum e que concentra uma série de ponderações - a maioria pouco testada na prática, sobre justiça social, respeito ao meio-ambiente, proposição de soluções tão simples como surreais de resolver problemas complexos. Exemplo disso é dizer que escovar os dentes com a torneira fechada vai resolver o problema da água ou que separar os resíduos recicláveis dos não recicláveis solucionará o problema dos resíduos sólidos, etc. Claro que essas são ações de cidadania relevantes, mas qual a extensão dessas ações e em que medida podem promover a sustentabilidade?

Primeiro é necessário recorrer à história. Em 1987, uma comissão da ONU elaborou o relatório intitulado “Nosso Futuro Comum” que deu à expressão Desenvolvimento Sustentável a seguinte definição: “[assegurar] a satisfação das necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades” A sustentabilidade é, portanto, o resultado exitoso do desenvolvimento sustentável.

Muitas tentativas estão a ser feitas para medir a sustentabilidade. Há indicadores que procuram expurgar e atribuir valores a características sociais, econômicas e ambientais de forma a assegurar governança e avaliação recorrente das métricas sustentáveis. Há padrões que começam a surgir com o propósito de tornar a sustentabilidade e sua evolução intra-instituições, tais como os programas de sustentabilidade corporativos com metas e datas para revisão que permitem avaliar os avanços frente aos investimentos e também a comparação inter-instituições simultaneamente como tentativa de diferenciar os agentes sustentáveis no mercado - exemplo disso é o índice de sustentabilidade da BM&F. Mas nenhum deles foi ainda capaz de quantificar as alterações na “...capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”.

Essa “ciência” para mensurar a sustentabilidade ainda engatinha, mas tem papel fundamental. Há que se ampliar a visão de abrangência e estimular programas amplos, que modifiquem o paradigma estimulando o engajamento verdadeiro e diferenciando-se da velha conversa fiada da sustentabilidade.

Isso tudo, que pode parecer um exercício intelectual despretensioso e de uso duvidoso, ao contrário, começa a ser visto por investidores e governos de forma estratégica. Uma empresa que se preocupa com indicadores sociais e ambientais ao mesmo tempo em que os resultados econômicos, valoriza seu capital humano e acaba por ter maior fidelização dos recursos humanos e alinhamento de estratégia corporativa. Por ter gente mais experiente, encontra mais eficiência nos processos, o que se reflete em ganhos de produtividade e redução de custos, além de acabar por desenvolver uma filosofia verdadeira de compromisso com o meio-ambiente de entorno e stakeholders. No outro extremo, há os modelos de negócios predatórios que se baseiam em artifícios momentâneos e brechas regulatórias e asseguram uma renda elevada por um intervalo de tempo curto. Até que a sociedade encontre os caminhos que impeçam uma atividade predatória, normalmente isso leva a uma situação socioeconômica pior do que a que precede o início da atividade. É o caso da extração aurífera na Serra Pelada, dentre tantos outros exemplos.

Assim, os cenários propositadamente simplificados acima permitem duas opções de investimento. Aquele que é de rápida penetração, risco e resultado e rápida saída, e que, normalmente, quando bem-sucedido para o investidor é de péssima valia ao sistema socioeconômico espoliado.

Tal como os dois cenários de oportunidade, há também dois tipos de investidores. Aqueles que têm pouco ou nenhum compromisso com os stakeholders além do próprio interesse do capital e aqueles que buscam um modelo perene de governança e ganhos consistentes através do tempo.

Mais uma vez, recorrendo ao exercício de simplificação binária proposto nesse artigo, qual desses modelos pode assegurar, emprego, renda, estabilidade social, ambiental e econômica no longo-prazo? Evidente.

O desenvolvimento, sustentável ou não-sustentável, é ato contínuo e já há como recorrer a fatos concretos para avaliar o que é ou não melhor. Uma gestão pública não-sustentável das ferramentas de crédito imobiliário nos Estados Unidos levou a uma crise em escala global em 2008 da qual ainda muitos países são reféns.

Em contrapartida, o Brasil, que criou as bases para uma economia preocupada em distribuir renda e reduzir desigualdades, acabar com a pobreza extrema e dedicar praticamente metade dos recursos públicos federais aos programas sociais, naquilo que poderia parecer um ato populista e eleitoreiro, possibilitou, de fato, a promoção de uma economia sólida e um crescimento da classe média - fenômeno único no mundo nessa época de crise, evitando, inclusive, que houvesse recessão nos últimos cinco anos.

A sustentabilidade, pois, vale muito, tanto no âmbito corporativo quanto no âmbito da gestão pública. Sua ausência tem um custo que tende a ser irreversível e por vezes, insuportável, enquanto que sua prática acaba por promover uma economia mais justa, de menor flutuação e risco e como diz o próprio nome: sustentável através do tempo.

Felipe Bottini é economista pela USP com especialização em Sustentabilidade por Harvard. Fundador da (www.greendomus.com.br) e da (www.neutralizecarbono.com.br) e Consultor especial do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - PNUD

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Artigo - Gestão Sustentável - Edição 30


BRASIL: EMERGENTE PARA SEMPRE?

Há dois anos, a edição de 12 de novembro de 2009 da Revista The Economist foi recebida com euforia pela Comunidade Econômica Internacional e, em especial, pelo Governo Brasileiro, capitaneado, na época, pelo Presidente Luis Inácio “Lula” da Silva. A notícia ajudou a consolidar a eleição da sua sucessora, Dilma Roussef, até então, Ministra da Casa Civil, com pouca expressão no cenário político nacional.

Com a capa estampada sob o título “Brazil takes off” (O Brasil decola), o editorial fez elogios rasgados ao recente desenvolvimento do país, entretanto, sem meias palavras, afirmou também que o maior risco para o grande sucesso da América Latina era a prepotência dos seus governantes, empolgados com o crescimento econômico, mesmo sem atentar para as bases do desenvolvimento.

Como se sabe, o Brasil faz parte do acrônimo BRICs, formado pelas iniciais de Brasil, Rússia, Índia e China, termo concebido e utilizado sabiamente pelo economista Jim O’Neill, chefe de pesquisa em economia global do grupo financeiro Goldman Sachs, em 2001. A sigla em inglês também pode significar tijolo em alusão à formação de uma nova comunidade com elevado potencial de desenvolvimento econômico.

Dois anos depois, passada a euforia, a mesma Revista The Economist coloca em xeque o crescimento sustentado dos quatro países formadores do BRIC, ao compará-los com o de países como Malásia, Cingapura, Coreia do Sul, Taiwan, Tailândia e Hong Kong, os únicos que conseguiram sustentar o crescimento por quatro décadas seguidas. Desde 1950, somente um terço dos chamados emergentes foram capazes de manter suas taxas de crescimento econômico superiores a 5% ou mais.

Em artigo recente, publicado no site da Revista com o título BrokenBRICs (BRICs quebrados), o editorial chama novamente a atenção da comunidade econômica ao relembrar que, desde 2009, a China, líder do crescimento econômico mundial, teve seu ritmo desacelerado de maneira drástica, de dois dígitos para menos de 7%, em média. O crescimento do Brasil estacionou na casa de 2% a 3%, o da Rússia despencou de 7% para 3,5% e o da Índia, de 9% para menos de 6% ao ano.

O editorial também questiona o atual momento do BRICs e menciona que o grupo, a despeito de todas as dificuldades inerentes aos países mais desenvolvidos, tornou-se o símbolo da esperança para a economia mundial, o que não se confirmou, pelo menos por enquanto.

Dessa forma, a esperança de aumentar a convergência entre os países em desenvolvimento e os desenvolvidos é um mito. Dos 180 países monitorados pelo Fundo Monetário Internacional, somente 35 são desenvolvidos e, infelizmente, nenhum país membro do BRICs faz parte dessa elite, segundo os critérios da instituição. Na prática, a maioria dos países emergentes tem sido emergente por muitas décadas e assim deverá continuar por muito tempo.

De fato, o Brasil carrega o título de “emergente” desde a década de 1970, quando o chamado “milagre econômico brasileiro”, sustentado pelos altos investimentos do Governo Militar em obras de porte como a Rodovia Transamazônica, a Usina Atômica de Angra dos Reis e, principalmente, a Usina Hidrelétrica de Itaipu, proporcionou taxas de crescimento bem superiores às do Primeiro Mundo.

Embora o país tenha experimentado períodos de crescimento econômico favoráveis, não apenas na década de 1970, mas, recentemente, durante o Governo Lula também, sustentar o crescimento não é tarefa simples. A dinâmica do mundo globalizado e extremamente competitivo exige muito mais do que investimentos em obras faraônicas, incentivo ao consumo e à isenção de impostos para montadoras de veículos.

Em termos de infraestrutura, educação, cultura, saúde e segurança pública, principais pilares do desenvolvimento econômico sustentável, ainda há muito o que fazer. Evoluímos bastante na democracia, entretanto, não conseguimos nos livrar da corrupção, da violência e da burocracia.

Não se trata de torcer contra nem exaltar os males do país, mas de fazer uma profunda reflexão a respeito do quanto ainda precisamos caminhar para conquistar o status de primeiro mundo. Países com poucos recursos naturais evoluíram bem mais rápido que o Brasil, como o Japão, a Coreia do Sul e o Canadá.

A mudança não depende exclusivamente dos governos. Depende muito mais da força e da inteligência da sua gente, por meio do voto, do trabalho estruturado e da fiscalização do uso consciente do dinheiro público para promover as mudanças necessárias capazes de garantir o crescimento econômico sustentado.

Se as forças políticas e econômicas do país forem concentradas somente para a realização da Copa do Mundo de 2014 e para os Jogos Olímpicos de 2016, o título de “emergente” será carregado por muito mais tempo do que o necessário.

Jerônimo Mendes
Administrador, Coach Empreendedor, Escritor e Palestrante
Mestre em Organizações e Desenvolvimento Local pela UNIFAE
 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Artigo Meio Ambiente - Edição 30


O verdadeiro profissional da sustentabilidade

Anda circulando na rede textos abordando quem seriam os profissionais da sustentabilidade. Assim como ocorreu com a palavra ecologia, sustentabilidade tem sido usada para tudo, e acabou sem significado, claro.  Gostaria de dar meu pitaco.

Conforme o professor Gastão Franco da Luz, que também escreve nesta coluna, sustentabilidade é a propriedade de um processo que, além de continuar existindo no tempo, revela-se capaz de: (a) manter padrão positivo de qualidade, (b) apresentar, no menor espaço de tempo possível, autonomia de manutenção (contar com suas próprias forças), (c) pertencer simbioticamente a uma rede de coadjuvantes também sustentáveis e (d) promover a dissipação de estratégias e resultados, em detrimento de qualquer tipo de concentração e/ou centralidade, tendo em vista a harmonia das relações sociedade-natureza.

Da onde veio esse conceito? Do estudo das bases epistemológicas do tema as quais envolvem Thoreau, Bertalanffy, Odum, Morin, Bauman, entre outros. Matamos a cobra e mostramos o pau. Epa! Não podemos matar a cobra, porque ela pertence a uma rede de coadjuvantes sustentáveis dentro de uma dinâmica ecossistêmica. No máximo capturamos a cobra, caracterizamos e depois soltamos novamente no ambiente a qual ela pertence. Vou tornar a frase sustentável: capturamos a cobra e mostramos a caracterização.

Agora voltamos ao objetivo do texto: quem é o verdadeiro profissional da sustentabilidade? Resposta: o profissional desempregado. Peguei pesado? Explico. No exercício de sua profissão, o profissional da sustentabilidade busca contribuir para o processo da sustentabilidade. Como estou falando de mercado de trabalho, refiro-me à sustentabilidade do urbano insustentável. Então, dentro dos limites desse ecossistema artificial, o profissional minimamente aplica em si mesmo o que prega. Ele não possui automóvel e sempre evitará o uso de um meio de deslocamento que utilize combustível não renovável. Considerando um impacto mínimo, ou ele anda a pé, ou, no máximo, de bicicleta. Ônibus? Só em ladeira. Ele possuirá apenas - e tão somente - o essencial para sua qualidade de vida, ou seja, será módico no quesito habitação, mobiliário, vestuário. Leia-se: nada de descartável. Ele fará uso racional da tecnologia, evitando a aquisição de produtos eletrônicos supérfluos e/ou descartáveis. Ele será um representante ativista da demanda por produtos e serviços que utilizem materiais reciclados, incluindo brexós, sebos, bibliotecas, garage Sales. Ele prega em si mesmo o próprio discurso.

Então, vamos imaginar esse profissional sendo chamado para uma entrevista de emprego. Ele vai de ônibus e, nesse caso, corre o risco de chegar atrasado. Para os padrões de moda das marcas supérfluas, ele possivelmente estará malvestido. Agenda? Aquela antiga de papel reciclado. Seu concorrente na tal entrevista chega dirigindo um automóvel movido a diesel, vestindo os últimos lançamentos da moda metrossexual e anotando dados em um tablet. Qual deles causará melhor impressão?

O mercado empresarial busca profissionais que saibam tornar a sustentabilidade viável sem prejudicar o lado econômico dos negócios. Corretíssimo, ninguém quer montar uma empresa para ter prejuízo. 

Entendeu porque o verdadeiro profissional da sustentabilidade - conceituada no início deste texto - está sub e/ou desempregado? Para sobreviver, temos de ser “meio” sustentáveis. O mercado ainda não tem espaço para o inteiro. Soltei a cobra.


Rosimery de Fátima Oliveira
Especialista em diagnóstico e planejamento sistêmico

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Artigo - Que tal um 2013 mais sustentável?


Que tal um 2013 mais sustentável?


O ano de 2012 acabou há poucos dias, mas em questões de sustentabilidade, deveríamos ter dado o ano por encerrado em 22 de agosto, quando tudo o que consumimos até então o planeta ainda tinha condições de renovar. De lá até o dia 31 de dezembro o tudo que utilizamos de água, alimentos e biodiversidade não poderá mais ser recuperado.

O dado é do Global Footprint Network e é um importante alerta para quem planeja o futuro. O mundo dispõe de um estoque de recursos renováveis e a cada ano, esse estoque diminui em razão de não conseguirmos conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação do planeta. Para comportar nossos padrões de consumo, o planeta tinha que ser 56% maior, ou a população 36% menor, e assim, manter equilibrado o consumo com a renovação.

Do jeito que estamos, ano a ano nosso estoque de sustentabilidade ambiental está se reduzindo a taxas aceleradas e diminuindo nossa capacidade de recompor a pegada ecológica. Difícil falar sobre sustentabilidade nesse contexto, mas vamos lá!

Esse é um dado global, que agrega as médias de consumo versus biocapacidade. Nos EUA, o consumo é o mais agressivo de todos. Para comportar o padrão americano de consumo, seria necessário termos 4.16 planetas trabalhando para renovar a biocapacidade.

No Brasil, se olharmos nossa pegada versus nossa biocapacidade, nota-se que consumimos 30% da capacidade de renovação dos nossos recursos naturais, ou seja, bastante abaixo da capacidade de renovação, o que nos concede uma poupança de sustentabilidade, já que ano após ano, permitimos que os recursos sejam renovados.

Essa constatação coloca o Brasil na vanguarda da sustentabilidade. Claro que há muito por fazer, nosso consumo de recursos naturais cresce a cada ano e temos que cuidar para que não passemos dos limites. Temos, ao contrário de maioria das outras nações, condição de planejar nosso crescimento sustentável. Está aí uma excelente promessa para 2013: colocar isso na pauta da vida pessoal e corporativa cotidianamente.

O Brasil é, definitivamente um bom exemplo de sustentabilidade ambiental, mas não há sustentabilidade parcial ou segregada e os dados acima não consideram importação e exportação na metodologia de estimação. O mundo tem que agir em conjunto para pensar em sustentabilidade global e nós temos um papel fundamental nesse cenário. Temos a condição de mostrar que é possível ajudar a quebrar alguns paradigmas que tanto atrapalham o desenvolvimento sustentável.

A nossa filosofia de entendimento das coisas é pautada na divisão para aprofundamento e conhecimento. Por exemplo, se vamos estudar o céu, o dividimos em constelações, galáxias, sistemas planetários, etc... Quando vamos à escola, temos diferentes aulas, como português, matemática, geografia. Sem dúvida esse método é útil, mas não é único e nem pode ser assim entendido.

Quando trata-se de sustentabilidade, há que se observar tudo de forma integrada e ainda não estamos preparados pra isso. Ainda acreditamos que o excesso de interferência sobre a natureza se resolve com mais interferência ainda sem medir os riscos a que isso nos leva. Naturalmente, ninguém pode entender de tudo, então, deveríamos ter diversos agentes especialistas trabalhando em conjunto para entender como as questões de desenvolvimento econômico, social e ambiental (esse é o tripé da sustentabilidade) podem interagir em prol da sustentabilidade.

Em suma, se queremos ser sustentáveis (e não vejo outro caminho), temos que fomentar o diálogo e a visão compartilhada dos problemas a se resolver. Já estamos avançando nas questões climáticas em termos científicos e de diálogo político e essa agenda tem que permear todos os outros aspectos da organização global. Dado o nível tecnológico de comunicação que o mundo dispõe, trata-se apenas de querer aprofundar.

Que tal em 2013 nos engajarmos nas questões mais amplas? Sairmos da nossa zona de conforto e atuarmos em conjunto para o bem maior? Que tal se conseguíssemos reverter a tendência de super consumo e termos como meta comemorar o ano novo em setembro em 2013, outubro em 2014, novembro em 2015 e dezembro em 2016? Cabe a cada um dos 7 bilhões de habitantes dar sua contribuição.

Desejo a todos um excelente ano em 2013 e já que não podemos replicar a biocapacidade do mundo nos moldes brasileiros, que possamos ser um exemplo de consumo consciente!

Felipe Bottini é economista pela USP com especialização em Sustentabilidade por Harvard - Consultor Senior e cofundador da Green Domus Desenvolvimento Sustentável, Neutralize Carbono e Consultor especial do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - PNUD. 

Artigo - Água: sustentabilidade para beber!

Água: sustentabilidade para beber!


A água é fundamental para a manutenção das sociedades pelo singelo motivo de que é um insumo primordial em todos os processos produtivos e atividades humanas. Mas, antes disso, a água é parte de todos os organismos vivos no planeta e uma substância indissociável do funcionamento dos ecossistemas. Dessa forma, a qualidade e a disponibilidade desse recurso vital devem ser asseguradas para que as sociedades continuem a se desenvolver em seus capítulos sociais, econômicos e culturais.

Ocorre que o cenário é de demandas múltiplas e crescentes em função das exigências típicas do crescimento econômico, da expansão demográfica e da mobilidade social. Os usos industriais, domésticos, comerciais, recreativos, agrícolas, energéticos e no transporte são concorrenciais. Ao mesmo tempo, diversos mananciais estão ameaçados ou degradados mediante os impactos desses usos - ao passo que o atendimento pleno das necessidades mais básicas de água ainda está distante em muitos países, não sendo diferente no Brasil.

De fato, o Brasil possui a maior reserva hídrica e a segunda maior cobertura florestal do planeta, atributos que, em princípio, favorecem os recursos hídricos. As águas utilizadas nos variados processos e tipos de usos invariavelmente retornam aos rios, mares, solo e subsolo, dado o ciclo hidrológico.

Contudo, não se pode falar que seja um recurso inesgotável, tampouco abundante em termos absolutos. Apenas 3% de toda a reserva hídrica do mundo são de água doce. Os mananciais estão distribuídos heterogeneamente entre os países e em suas regiões, por vezes distantes dos pontos de demanda. Os ecossistemas aquáticos acham-se sob estresse ambiental. O desmatamento impacta negativamente os corpos hídricos. Os sistemas de captação, tratamento e distribuição ainda não são capazes de levar água a todos, além de enfrentarem sazonalidades, e nem todas as pessoas podem arcar com os custos da água tratada. Em termos relativos, pode-se falar em escassez na abundância porque há questões de qualidade e acesso à água.

Em tal quadro, o crescimento desejado da economia brasileira e a ampliação do comércio internacional continuarão a demandar mais água, energia e alimentos. Destaque-se que parte das exportações brasileiras é, na prática, importação de externalidades ambientais hídricas negativas, pois os maiores importadores de commodities intensivas em água deixam de impactar seus próprios recursos hídricos. Portanto, a água condiciona a economia e a produção de modo bastante abrangente, consideração fundamental na abordagem da segurança hídrica em relação às seguranças energética e alimentar.

Nesse sentido, é simplesmente urgente superar questões irresolutas da água, como o saneamento insuficiente e a ausência de manejo abrangente de resíduos sólidos, pois os efluentes e a interação das chuvas com o lixo urbano são problemas sérios. Restaurar e conservar as áreas de recarga mediante a recuperação da vegetação ciliar favorece os serviços ecossistêmicos prestados pela água. Os instrumentos legais e as soluções de engenharia devem ser acompanhados da melhora no resultado da gestão, de modo a promover o uso responsável da água, que incorpora aspectos de governança, de relevância dos ecossistemas aquáticos, de qualidade e quantidade e do acesso à água com vistas à sustentabilidade.

O governo deve exercer a gestão eficiente da água e promover o uso responsável, elevando a qualidade da administração pública e da resposta à sociedade também nesse aspecto. As pessoas devem buscar saber a origem dos produtos que consomem e como foram produzidos, trazendo a realidade da água ao seu cotidiano. Os setores produtivos precisam compreender melhor o seu papel dentro da governança da água e utilizar os recursos hídricos com responsabilidade em seus processos, internalizando nos negócios os serviços prestados pela água.

Os desafios amplificados que o Brasil enfrenta em matéria da conjugação desse contexto com as mudanças globais que já se avizinham - demográficas, econômicas, sociais e climáticas - impõem a segurança hídrica como item prioritário na agenda da sustentabilidade, pois somente assim se poderá assegurar a produção de alimentos e a geração de energia, tão essenciais ao desenvolvimento do país.

Silneiton Favero é consultor sênior da Green Domus Desenvolvimento Sustentável Ltda.


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Resquícios de sustentabilidade. Um registro de viagem.

No Brasil, desde a homologação da última Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional/LDB, 1996, têm ocorrido esforços pontuais no sentido de se esboçar Políticas Públicas comprometidas com a Educação do Campo que se afastem dos erros e engodos que remontam ao início da República Velha, quando foi instalada a concepção de “ruralismo pedagógico”, mais interessada na fixação do homem na Zona Rural a qualquer custo, do que voltada para o desenvolvimento, a emancipação e o progresso das comunidades que permitem às Zonas Urbanas a dinâmica da Economia. Não fossem os cérebros e músculos que produzem alimentos, as cidades seriam mais insustentáveis do que hoje o são.
Desde 2008, tenho sido convidado para trabalhar junto a Projetos e Cursos de Pós-Graduação que, por iniciativas geralmente propiciadas por instituições privadas, suprem a necessidade de Formação de Formadores Rurais, em módulos que atendem às Práticas Pedagógicas de Educação do Campo. Com isso, além de tentar contribuir com a qualificação docente, tenho-me propiciado a realizar Estudos de Caso que, no mínimo, autorizam-me a algumas assertivas, em relação às minhas “andanças” nos Estados do Sul.

No mais das vezes, deparo-me com comunidades que, sob a égide da concentração e da centralidade, atendem às exigências de uma empresa que, comprometida com a monocultura, invariavelmente contribuem com a exaustão dos solos, a maxi-exploração de recursos hídricos, o uso e abuso de produtos químicos... e as decorrentes exclusões, desterritorializações, e demais insustentabilidades geradas pelo viés crescimentista, em detrimento de protocolos desenvolvimentistas. Nesses casos, pouco ou nada representam os saberes voltados às práticas pedagógicas da Educação do Campo, pois a praxe do dia a dia é a da sobrevivência e não a do Desenvolvimento Sustentável. Porém, há um mês, estive em um local que me descortinou uma realidade “utópica”, ao menos até hoje e dentro dos pressupostos de qualidade de vida. Refiro-me a Cruz Machado, cidade do Sudoeste do Paraná.

O Município chama a atenção por algumas variáveis que, salvo engano da literatura corrente sobre os ideais de vida com quantidade e qualidade suficientes, podem ser assim descritas: a) ausência de registros significativos em relação a atos de violência. A performance educada do cruz machadense, é destacável ao visitante; b) crianças e pessoas idosas em trânsito, o que sempre é um indicador de alguma segurança presumida, enfaticamente na Zona Urbana; c) não-utilização de agrotóxicos em escala, na produção agropecuária; d) 80% da população vivendo na Zona Rural, onde o cultivo do milho, do feijão e da erva-mate coexistem com a pecuária leiteira e a suinocultura, com base na Agricultura Familiar; e) salvo algumas manchas de Pinus elliotii (remanescentes de tentativas de monocultura crescimentista),  biossistemas íntegros, com fauna e flora preservadas, onde se destaca exemplar concentração de Pinheiro-do-Paraná; f) sistema hídrico não comprometido, apresentando rios piscosos isentos de contaminações, o que favorece a Economia Limpa.

Em síntese: diante de tantas evidências de insustentabilidades socioambientais, penso haver encontrado e sido confiscado por um lugar onde as utopias são vivenciáveis. Empiricamente, atribuo o fato a quatro intervenientes sistêmicas em Cruz Machado, que talvez respondam pelo “fenômeno”: 1) a região é acidentada, não permitindo o latifúndio de maquinarias, tão ao gosto de Economia de Escala; 2) a conjugação entre qualidade do solo, clima e preservação ambiental, associados à mudança da cultura local em relação à Agropecuária, há duas gerações, como relatam os informantes locais; 3) o cultivo da erva-mate, planta exigente de bioassociações, de preservação ecossistêmica e tratamento não impactante, da produção ao beneficiamento e consumo; 4) ao decorrente cuidado com os sistemas de Valores Sociais de uma comunidade urbano-rural que encontrou seu ponto de equilíbrio para o bem-viver. Minha única dúvida é sobre o compartilhar dessas informações, pois não gostaria de vir a ser responsabilizado por uma “invasão ao paraíso”.

Gastão Octávio Franco da Luz - Biólogo, Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento e Consultor em Sustentabilidade.

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Veja outros conteúdos dessa edição:

Matérias:

Capa: Instituto HSBC Solidariedade - Sintonia com demandas socioambientais e econômicas do Brasil

Tecnologia e Sustentabilidade: Proteção e segurança para o consumidor

Responsabilidade Social Corportativa: Lançado programa empresarial em que funcionários podem desabafar e buscar o autodesenvolvimento

Responsabilidade Ambiental:Compromisso efetivo com o ambiente
Desenvolvimento Local: Conscientização empresarial e compromisso com o futuro do planeta




Artigos:


Giuliano Moretti: Da Ego à Ecossustentabilidade. O caminho da percepção.
Jerônimo Mendes: Empreendedor ou Empregado? Um desafio interior.


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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

ARTIGO: INOVAÇÃO E ESPÍRITO EMPREENDEDOR

Quando Bill Hewlett e Dave Packard se reuniram, em 23 de agosto de 1937, para discutir a formação da Hewlett-Packard, eles não tinham a mínima ideia do que a empresa faria. A única coisa que sabiam é que queriam abrir uma empresa em sociedade no promissor campo da engenharia eletrônica.

Segundo James Collins e Jerry I. Porras, autores do best seller Feitas para durar, Hewlett e Packard decidiram primeiro abrir a empresa e depois resolveriam o que poderia ser feito. Eles simplesmente começaram a trabalhar, tentando tudo o que pudesse tirá-los da garagem e pagar as contas de luz.

No início, a HP fabricava de tudo, desde indicadores de linha de colisão para boliche, mecanismos de relógio para telescópios, mecanismos para acionamento automático de descargas em banheiros públicos até uma máquina de choques para fazer as pessoas perderem peso.

O indicador da linha de colisão para boliche não revolucionou o mercado. A descarga automática para mictórios e as máquinas de choque para emagrecimento também não chegaram a lugar nenhum. Na verdade, a empresa foi andando aos trancos e barrancos durante mais ou menos um ano antes da sua primeira grande venda: oito áudio-osciloscópios para uso no filme Fantasia, produzido pela Disney.

Apesar dos reveses e das poucas perspectivas de sucesso, a HP continuou meio sem direção, com dificuldades, com uma série de produtos, até receber o empurrão com contratos assinados durante a guerra no início da década de 1940 quando, finalmente, decolou.

Da mesma maneira que Hewlett e Packard, Sam Walton, fundador da rede de supermercados Wall Mart, também começou sem uma grande ideia. Ele abriu seu negócio com nada mais do que a vontade de trabalhar para ele mesmo, um pouco de conhecimento e muita paixão pelo varejo.

Walton começou em 1945, com a franquia de uma lojinha Ben Franklin na cidadezinha de Newport, no Estado do Arkansas e, segundo suas próprias palavras, não tinha a menor ideia do escopo do negócio que estava começando.

O negócio foi se desenvolvendo aos poucos, passo a passo, a partir daquela lojinha, até que a grande ideia de uma loja rural de descontos surgiu com uma etapa evolutiva natural quase duas décadas depois de ele ter aberto a sua empresa.

A 3M começou como uma mina falida de corundum, mineral utilizado na indústria de abrasivos, deixando seus investidores com ações cujo valor de venda era equivalente a “duas ações por uma dose de uísque barato”. Sem saber o que mais fazer, a empresa começou a fabricar lixas. A 3M começou tão mal que o seu segundo presidente não recebeu salário durante os seus primeiros onze anos de posse.

Entre os seus cinco fundadores, não havia nenhum inventor ou cientista renomado. Eram todos homens comuns: um médico, um açougueiro, um advogado e dois executivos ligados à indústria de ferrovias que identificaram a oportunidade de ganhar dinheiro vendendo o mineral.

Atualmente, a 3M - Mineraçao e Manufatura de Minesotta - é um exemplo de empresa que leva a estratégia da inovação ao patamar de prioridade absoluta, entretanto, já na década de 1930, uma série de decisões gerenciais promovidas por William McKnight, elegeu a inovação como foco principal da estratégia de negócios da empresa.
O que todas essas empresas têm em comum? Em primeiro lugar, nenhuma delas começou com uma “grande ideia”, ou seja, uma ideia inovadora e revolucionária do ponto de vista da tecnologia. Em segundo lugar, todas tiveram que mudar, de maneira radical, a sua forma de trabalhar para atingir o público-alvo desejado.

Na realidade, a combinação entre o espírito empreendedor e irrequieto de seus fundadores e a necessidade de inovar para sobreviver foi o que definiu o seu perfil de atuação no mercado. Ter uma grande ideia não significa ter sucesso. Colocá-la em prática e trabalhar consistentemente para a sua execução é a melhor ideia.
De acordo com Peter Drucker, o grande guru da administração moderna, “Empreendedores procuram por mudanças, portanto, olhe para cada janela perguntando-se: isso poderia ser uma oportunidade? Não perca algo somente porque não faz parte de seu planejamento. O inesperado é frequentemente a melhor fonte de inovação”.

Jerônimo Mendes
Administrador, Consultor, Professor Universitário e Palestrante
Mestre em Organizações e Desenvolvimento Local
** Artigo publicada originalmente na edição 26 da revista Geração Sustentável








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Veja outros conteúdos dessa edição:

Matérias:
Entrevista: Elisa Prado (Tetra Pak)
Capa: Campos Gerais: um Paraná a ser conhecido
Visão Sustentável: Produtos concentrados fazem bem ao meio ambiente
Desenvolvimento Local: Setor de sustentabilidade ganha representatividade no Brasil
Responsabilidade Social: Paraná se mobiliza para o desenvolvimento sustentável
Energias Renováveis: Cenário para comercialização de carros elétricos no Brasil ainda não é favorável

Artigos:
Leandro F. Bastos Martins: Promessa é dívida?
Antenor Demeterco Neto - Logística e desenvolvimento econômico sustentável?
Gastão Octávio da Luz - Desafios Globais ao "desenvolvimento sustentável"

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domingo, 22 de janeiro de 2012

Artigo: As leis de incentivo à cultura

O Brasil é um país reconhecidamente cultural, pois desenvolve sua visão de mundo e expressa isso com bastante abrangência, seja em função das tradições festivas do carnaval ou mesmo do futebol como fenômeno estético.

Porém, o desenvolvimento cultural em termos mais profissionais demanda padrões estáveis de produção. Ideia criativa, interesse de público e especialmente capital de fomento.

Nos países mais desenvolvidos, em que a renda do cidadão é proporcional às suas necessidades básicas, é possível o desenvolvimento de uma economia de mercado sustentando uma “indústria cultural”, o que eleva os níveis da produção cultural para níveis superiores aos da atividade artesanal comunitária, incluindo-a, mas ampliando sua abrangência.

No caso do Brasil, depois dos anos sessenta, quando a cultura entrou em choque com os objetivos do regime militar, seu desenvolvimento foi suprimido aos níveis do submundo, deixando de ser possível a sustentabilidade comercial das atividades culturais.

Foi então que, na década de noventa, promulgou-se a Lei nº 8313/91, nominada ROUANET, em função de seu idealizador Sérgio Paulo Rouanet, e que pretendia fomentar a produção cultural do país por meio do mecanismo de renúncia fiscal do Imposto de Renda.

De fato, foi preponderante para a alavancagem da mobilização produtiva, pois inseria a iniciativa privada como co-participante, ao lado dos produtores culturais e do Estado, como mobilizador e mensurador de resultados sociais.

Originalmente, o financiamento se dava em proporção, onde o estado propiciava por meio da renúncia fiscal, algo em torno de setenta por cento e a iniciativa privada o restante, trinta por cento.

Algo importante decorre da avaliação dos projetos pelo Ministério da Cultura, a oportunidade de financiamento da produção, mas paralelamente a validação do produto cultural como apto a ser oferecido ao consumo, por suas características gerais e intrínsecas.

Contudo, em certo momento, uma alteração na norma criou situação diferenciada de incentivo, onde até cem por cento do projeto é financiado através de renúncia fiscal, para incentivar mais ativamente algumas áreas de cultura, tais como: a) artes cênicas; b) livros de valor artístico, literário ou humanístico; c) música erudita ou instrumental; d) exposições de artes visuais; e) doações de acervos para bibliotecas públicas, museus, arquivos públicos e cinematecas, bem como treinamento de pessoal e aquisição de equipamentos para a manutenção desses acervos; f) produção de obras cinematográficas e videofonográficas de curta e média metragem e preservação e difusão do acervo audiovisual; g) preservação do patrimônio cultural material e imaterial; h) construção e manutenção de salas de cinema e teatro, que poderão funcionar também como centros culturais comunitários, em Municípios com menos de 100.000 (cem mil) habitantes.

Até certo momento isso foi positivo, porém, com o tempo, verificou-se grande desvirtuamento de objetivos, reduzindo-se o interesse dos patrocinadores apenas a projetos que possuam essas características, em função da amplitude do incentivo integral, desprezando-se os demais projetos com incentivo reduzido.
Isso significa que a maioria dos patrocinadores passaram a se interessar somente quando não tinham mais que investir recursos de marketing seus, acabando o Estado a ser o único investidor. Há projeto de nova lei cultural revendo essa distorção.
Além disso, alguns estados federados possuem suas legislações de incentivo com base no ICM e municípios com base no IPTU/ISS.

Projetos ligados ao Patrimônio Cultural, como o Parque Histórico de Carambeí são excelentes exemplos de uso positivo do incentivo fiscal, pois retornam para a sociedade quase gratuitamente o resultado do fomento.


Fábio André Chedid Silvestre
Advogado, Especialista em Direito Empresarial, Mestre em Engenharia de Produção e Sistemas, Curador do Parque Histórico de Carambeí e Sócio Proprietário do Núcleo de Mídia e Conhecimento



Acesse aqui a matéria "Campos Gerais: um Paraná a ser conhecido" publicada originalmente na edição 26 da Revista Geração Sustentável e traz o exemplo de sustentabilidade do Parque Histórico de Carambeí - Jornalista: Letícia Ferreira

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Veja outros conteúdos dessa edição:

Matérias:
Entrevista: Elisa Prado (Tetra Pak)
Capa: Campos Gerais: um Paraná a ser conhecido
Visão Sustentável: Produtos concentrados fazem bem ao meio ambiente
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Responsabilidade Social: Paraná se mobiliza para o desenvolvimento sustentável
Gestão de Resíduos: Crianças aprendem a dar outro destino aos resíduos orgânicos
Energias Renováveis: Cenário para comercialização de carros elétricos no Brasil ainda não é favorável

Artigos:
Leandro F. Bastos Martins: Promessa é dívida?
Jeronimo Mendes - Inovação e espírito empreendedor
Antenor Demeterco Neto - Logística e desenvolvimento econômico sustentável?
Gastão Octávio da Luz - Desafios Globais ao "desenvolvimento sustentável"

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domingo, 1 de janeiro de 2012

Artigo: Como estamos construindo nosso mundo sustentável?

Cabe-me aqui fazer uma pequena provocação. Temos consciência do momento que o planeta está vivendo? Do quanto nossos pequenos gestos do dia a dia significam para a sobrevivência do futuro na terra? Estamos vendo e, muitas vezes, participando deste movimento empresarial em busca pela sustentabilidade, mas até que ponto estamos preparados para viver em uma sociedade sustentável?

Indicadores são criados, certificações são obtidas, materiais são substituídos por matérias-primas mais limpas, inventários de carbonos são feitos e marcas são valorizadas, mas será que só isso nos trará a sustentabilidade que devemos perseguir?

Neste cenário, o grande objetivo é trabalhar uma gestão harmônica, o famoso Triple bottom line, o tripé da sustentabilidade, em que os aspectos econômicos se fundem à preocupação com a comunidade e aos impactos ambientais, causados pelas atividades exercidas pelas pessoas e pelas empresas. Porém, invariavelmente, pensamos no macro, esquecemos pequenos detalhes, que fazem toda a diferença.

É por isso que quando vejo pesquisas de intenção de compra, tenho dois sentimentos. O primeiro bem otimista, ao perceber consumidores comprando cada vez mais produtos com menor impacto ambiental ou buscando comprarem de empresas socioambientalmente responsáveis, mesmo tendo de pagar mais por isso. Porém, meu segundo sentimento é de tristeza, pois apesar de procurarmos comprar produtos “verdes”, tão especiais, continuamos descartando de maneira errada. E o que é pior. O descarte inapropriado, não ocorre apenas dentro de casa. São realizados também por empresas e pelo setor público. Ou alguém deixou de reparar como nossas cidades estão cada vez mais sujas? Hoje, em boa parte delas, não é necessário chover muito para que a situação se torne preocupante para a segurança da população, já que o risco de alagamentos é constante, resultado de uso inapropriado do solo, construções irregulares e acúmulo de lixo, entre outros.

Como pensar num mundo sustentável, se não somos capazes de pequenos cuidados como esse que afetam nossa forma de vida e colocam em risco a vida nas cidades? Se ainda temos empresas que utilizam mão de obra escrava ou infantil? Se ainda agredimos o outro, porque é diferente, pensa diferente ou tem orientação sexual diferente? Se ainda não são poucos os irresponsáveis diante de um volante, encharcados pela bebida ou pelo prazer da simples velocidade?

Cobramos atitudes das empresas, mas precisamos cobrar de cada um de nós, a fim de que nossa sociedade não se autodestrua com práticas “canibalísticas” diversas. Precisamos mudar nossas atitudes, como indivíduos e cidadãos. Por que não cobramos ou fiscalizamos os princípios da sustentabilidade dos nossos governos? A crise mundial que estamos vivendo não é um grande exemplo do muito que temos feito de errado, a começar pela economia?

Não dá para negar que avançamos muito nos cuidados com o nosso planeta, mas chegou a hora de olharmos ainda mais profundamente para a questão e analisarmos qual a nossa contribuição para que possamos construir, de forma efetiva, um mundo sustentável. Sem esquecer a responsabilidade de nossos hábitos nessa equação. Atitudes que não considerem isso, esse processo de intensa transformação não passa do que se chama maquiagem verde (GreenWash). Não há como alcançarmos a sustentabilidade se não adotarmos atitudes e hábitos sustentáveis.

Minha esperança é que nossos discursos comecem, efetivamente, a se transformar em atitudes. Elas é que darão, verdadeiramente, o tom para o mundo sustentável que almejamos.

Yuri Beltramin
Profissional de Sustentabilidade, Consultor e Facilitador do Jogo Negócio Sustentável


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Veja os conteúdos dessa edição:

Matérias:
Capa: Saiba como andam as práticas de sustentabilidade dos bancos brasileiros
Entrevista com Manfred Alfonso Dasenbrock - Sicredi PR
Desenvolvimento Local: Iniciativa sustentável inova modelo de entregas
Responsabilidade Social: Sustentabilidade - da teoria à prática



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Artigo: Da Tunísia a Wall Street

Se existe algo que tem feito de 2011 um ano diferente dos anteriores é, sem dúvida alguma, a série de manifestações populares que têm ocorrido desde janeiro, reivindicando, em última análise, medidas que provoquem mudanças sociais. Nada muito diferente do que exigiam aqueles que tomaram a Bastilha de 1789 e fizeram a Revolução Francesa. É incrível como, depois de mais de 220 anos, não tenhamos conseguido avançar na direção da construção de uma sociedade mais justa e democrática, que se preocupe verdadeiramente com o desenvolvimento das pessoas e com a sustentabilidade das atividades socioeconômicas e culturais.

Desde a Revolta de Jasmim, que derrubou o ditador tunisiano Bem Ali, passando pelos “Dias de Fúria” no Egito, pelo esfacelamento da Líbia e por alterações em todo norte da África e grande parte do Oriente Médio, até as recentes manifestações inspiradas no “Occupy Wall Street” em muitos países, este tem sido um ano de manifestações públicas e insatisfações com injustiças sociais. Gostaria de exercitar três reflexões sobre pontos em comum em todas essas manifestações, mesmo reconhecendo terem origem e motivos aparentes diferentes.
A primeira é que, independentemente da discussão, se novas democracias africanas abrirão portas para grupos radicais mulçumanos tomarem o poder ou se concentrações em praças vão ou não gerar empregos para um grande número de pessoas sem atividade na Europa ou nos EUA, pode-se concluir, sem sombra de dúvidas, que o modelo reducionista e teleológico de pensar os homens e a sociedade como apenas mais um produto econômico não se sustenta mais. Com o passar dos anos, o andar da carruagem não consegue mais ajeitar as abóboras e só acentua diferenças socioeconômicas entre países e grupos sociais.

A segunda é como as novas tecnologias de registro, informação e comunicação têm-se tornado mais efetivas na organização desses movimentos, não importando mais o país onde ela tem origem. As redes sociais venceram as censuras, os toques de recolher e a falta de liberdade de expressão. A onda global de movimentos sociais que precedeu a Revolução Francesa durou mais de 20 anos, iniciando-se EUA em 1776 e atingindo diversos outros países, como Inglaterra, Irlanda, Países Baixos e outros. Hoje somos convidados a participar e a acompanhar ao vivo os acontecimentos, independentemente de proibições.


O MUNDO PRECISA DE LÍDERES

A terceira reflexão sobre pontos em comum nas revoltas de 2011 é a ausência de lideranças fortes e reconhecidas em todos eles. A movimentação é bastante positiva, pois são sinais de mudança. Porém, as reivindicações nesses movimentos não são muito claras. Em alguns casos, como na Argélia, a simples suspensão de um Estado de Emergência é recebida como satisfação e vista como uma medida pacificadora. Em outros, como no “Occupy Wall Street” e nos movimentos ocorridos recentemente em diversos outros países, inspirados na ocupação do centro financeiro norte-americano, os objetivos dos insatisfeitos não são tão claros. Constata-se apenas que do jeito que está não está bom. “Queremos o fim da ganância das grandes corporações e das instituições financeiras”, como se isto fosse compatível com um regime capitalista de mercado, que tem na acumulação de capital sua meta principal.

Precisamos desenvolver novas lideranças, em nosso país e em todo o mundo, em todas as áreas. Pessoas comprometidas com o novo, com o inédito, capazes de perceber a insatisfação de grupos e sociedades, de refletir, discutir, aparar diferenças e conduzir insatisfeitos para uma situação diferente, que tenha sempre como objetivo final uma maior igualdade entre regiões, povos e pessoas. Torço para que essa lacuna social de lideranças seja temporária e não signifique o esquecimento, a descrença ou o desinteresse das pessoas de retomar o caminho de construção da liberdade, da igualdade e da fraternidade.


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** Ivan de Melo Dutra: Arquiteto e Urbanista e Mestre em Organizações e Desenvolvimento

Artigo publicado originalmente na edição 25 da revista Geração Sustentável



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Entrevista com Manfred Alfonso Dasenbrock - Sicredi PR
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Artigo: Comunicação como estratégia de sustentabilidade empresarial

O desafio das companhias é reinventar-se para alçar o desenvolvimento, crescer transformando a realidade presente em melhoria global

Por Clarice Pereira

Com a escassez de recursos naturais que vivemos atualmente, a palavra sustentabilidade virou sinônimo de sobrevivência, não só para o planeta e seus habitantes, mas principalmente, para as empresas que querem garantir rentabilidade aliando responsabilidade ambiental e ações de cidadania. O crescimento mundial - populacional e econômico - não é sustentável! Portanto, o desafio das companhias é reinventar-se para alçar o desenvolvimento, crescer transformando a realidade presente em melhoria global.

Originariamente sustentabilidade tem a ver com longevidade, com mudança de hábitos e de cultura, com resiliência e superação, isto é, com a capacidade de se transformar para sobreviver às intempéries e evoluir com a natureza. Hoje, no entanto, ser um negócio sustentável virou uma espécie de modismo e o conceito vem sendo empregado, inclusive, por aqueles cujas práticas não correspondem integralmente à proteção ambiental ou à qualidade de vida das comunidades envolvidas nem com a longevidade do negócio.

Medidas simples como reciclagem, destinação adequada de resíduos, produtos tóxicos e restos de matéria-prima e o reuso de materiais podem fazer alguma diferença nos aspectos ambientais, mas para a construção de diretrizes realmente sustentáveis é preciso implementar soluções e estratégias de sustentabilidade empresarial, entre elas a comunicação. Mais que boa vontade, é preciso ter uma espinha dorsal alicerçada em conceitos, práticas e resultados, que torne sustentável também a cadeia de suprimentos e fornecedores.

No Brasil, a maioria das ações de sustentabilidade ainda está engatinhando. Teremos que nos esforçar muito mais para conciliar nosso processo produtivo com a preservação do meio ambiente e da sociedade como um todo. O caminho é o equilíbrio entre pessoas, natureza e negócios, num jogo de ganha-ganha, em que todas as partes se beneficiem e, neste aspecto, a comunicação é imprescindível.

Como não é possível, no curto prazo, mudar a organização inteira, é preciso escolher dentre as áreas, as mais críticas, para criar uma situação favorável às mudanças e transformar cada caso em oportunidade e esperança de um futuro melhor. Para conseguir êxito nas medidas de desenvolvimento sustentável, em primeiro lugar, é preciso conscientizar a base da pirâmide produtiva sobre a urgência das ações em defesa do meio ambiente e suas consequências na vida das pessoas. A capacitação sobre práticas de sustentabilidade, para o quadro funcional e fornecedores desenvolverem suas atividades, também faz parte da estratégia de desenvolvimento sustentável. Faz-se necessário ainda, compartilhar informações sobre responsabilidade socioambiental e trocar experiências com objetivo de transformação cultural.

Instrumentos de comunicação permitem construir e melhorar a imagem de uma empresa, entidades e públicos internos e externos. Até mesmo influenciar consumidores e ganhar novos seguidores. Também possibilita que as empresas posicionem-se em seu mercado de atuação. Alcançar a meta desejada depende de uma estratégia bem elaborada e que caiba no bolso do investidor. Para fazer parte do alinhamento estratégico ligado aos preceitos de sustentabilidade, a comunicação deve obrigatoriamente estar focada ao pensamento, aos negócios e aos objetivos do empreendimento.

Tomemos casos de sucesso no "Planejamento Estratégico de Sustentabilidade Empresarial", como o da Natura, por exemplo, que obedecem as diretrizes de: responsabilidade para com as gerações futuras; educação ambiental; gerenciamento do impacto ao meio ambiente; do ciclo de vida de produtos e serviços; e da minimização de entradas e saídas de materiais.

Para isso, a fabricante de cosméticos cumpre todos os requisitos legais, controla todas as fases de produção, reduz a utilização de insumos que prejudiquem a ecologia, bem como, extinguiu os testes em cobaias e as embalagens ecologicamente incorretas. Outro detalhe é o emprego de tecnologias limpas e a promoção da melhoria contínua nos processos de toda sua cadeia produtiva, com redução de emissões de gases geradores do efeito estufa. Também procura desenvolver modelos de negócios que levem em conta os princípios e as oportunidades advindas da sustentabilidade. Além disso, adota instrumentos capazes de medir, monitorar e auditar o consumo de recursos naturais e a geração de resíduos. A empresa ainda está preparada para quaisquer tipos de incidentes e comunica isto o tempo todo em seus informativos internos e externos, em suas notícias divulgadas pela imprensa, em seu material institucional e mercadológico.

A sociedade de consumo valoriza atitudes como o gerenciamento da qualidade do ar, da água e do solo, o controle de efeitos sonoros, a redução do desperdício, o uso de materiais biodegradáveis, a compensação de pegadas ambientais. Essas, entre outras iniciativas, devem fazer parte das estratégias de sustentabilidade de empresas comprometidas com um planeta melhor para os nossos filhos e devem ser exaustivamente anunciadas às futuras gerações.

No Brasil já foi criado, por iniciativa da Bolsa de Valores de São Paulo, Fundação Getúlio Vargas, Instituto Ethos e Ministério do Meio Ambiente, um Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE). Seu intuito é incentivar os investidores a aplicarem seu capital em empresas que trabalhem com políticas de desenvolvimento sustentável, responsabilidade social e ambiental, compromisso ético e boas práticas de negócios.

Embora algumas corporações pensem nisso apenas como retorno de marketing, que podem auferir da sustentabilidade empresarial, essa nova abordagem deve ser empregada conscientemente, no sentido de reintegrar o homem à natureza. Muitos empreendimentos já adotaram o conceito de responsabilidade socioambiental empresarial em seus processos produtivos e o transferem à cadeia de fornecedores e parceiros. As companhias nacionais têm que repensar o jeito de fazer negócios, respeitando o que é ecologicamente correto, ao mesmo tempo, economicamente viável; socialmente justo e culturalmente aceito.

Anúncios e divulgações a respeito podem dar excelentes resultados na adesão do conceito da sustentabilidade. O que garantirá seu sucesso é o alinhamento da forma de comunicação às necessidades de cada empresa. Para isso é preciso saber onde se está e onde se quer chegar!

Clarice Pereira é jornalista e comanda a assessoria de comunicação integrada Link Portal da Comunicação

Fonte: http://www.administradores.com.br/