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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Programa Jovem Profissionais do Desenvolvimento 2013

Já imaginou uma nova geração de profissionais preparada para os desafios que a humanidade enfrenta na atualidade?


Esta é a proposta do Programa Jovem Profissionais do Desenvolvimento, que está com inscrições abertas até 20 de janeiro, para jovens graduandos ou recém graduados, da região de Curitiba.

Os complexos desafios globais que se apresentam atualmente exigem novas respostas, especialmente da nova geração de profissionais, para as quais se faz necessário o desenvolvimento de determinadas competências, muitas vezes ainda não contempladas nos planos acadêmicos e organizacionais. Para enfrentar tais desafios, futuros líderes precisam de uma nova abordagem interdisciplinar, empreendedora, pautada na inovação e co-criação e, principalmente, pautada em valores e princípios compatíveis com a transformação e mudança dessas realidades. Movido por essas questões, surge em 2011 o Programa Jovens Profissionais do Desenvolvimento, que abre inscrições para a edição 2013 até o dia 20 de janeiro.

Realizado pela organização de sociedade civil, sem fins lucrativos, Sociedade Global, trata-se de um programa de desenvolvimento de competências para um novo perfil de Liderança e Cidadania Global, com duração aproximada de seis meses. São trabalhadas competências como: Liderança Sustentável, Gestão Estratégica, Empreendedorismo Social, Cidadania Global e Diplomacia Multisetorial. Em uma metodologia baseada em Sete Níveis do Desenvolvimento Humano, os participantes contam com módulos teóricos e vivenciais, plano de coaching, acompanhamento de mentores, e são orientados em ações práticas como a gestão de projetos e os desafios “on the job” no módulo Trainee Social.

O Programa proporciona ambientes de aprendizagem colaborativa para a prática de competências técnicas, humanas e valores universais necessários para a profissionalização do desenvolvimento. Através dele são propostas e implementadas soluções para a Governança Democrática e o Desenvolvimento Local em Curitiba.

Tem como objetivo final contribuir para o desenvolvimento de capacidades de jovens em início de carreira para que assumam cargos médios em atividades de gestão do desenvolvimento no setor público, privado ou social; com conhecimento crítico dos desafios da globalização, pensamento sistêmico e inteligência complexa, aptos a compreender as mudanças, riscos, incertezas e oportunidades, através de questionamento permanente, reflexivo e crítico e com capacidade de mobilização e ação.

Uma oportunidade para os indivíduos crescerem como cidadãos responsáveis, pensando e agindo global e localmente, transformando-se em líderes sustentáveis e em empreendedores sociais capacitados para gerir políticas, programas e projetos de desenvolvimento.

Edição 2013 - Início 18 de Fevereiro. Inscrições até 20 de Janeiro.

Saiba mais: www.sociedadeglobal.org.br

Contato: jpsociedadeglobal@gmail.com



domingo, 22 de janeiro de 2012

Artigo: As leis de incentivo à cultura

O Brasil é um país reconhecidamente cultural, pois desenvolve sua visão de mundo e expressa isso com bastante abrangência, seja em função das tradições festivas do carnaval ou mesmo do futebol como fenômeno estético.

Porém, o desenvolvimento cultural em termos mais profissionais demanda padrões estáveis de produção. Ideia criativa, interesse de público e especialmente capital de fomento.

Nos países mais desenvolvidos, em que a renda do cidadão é proporcional às suas necessidades básicas, é possível o desenvolvimento de uma economia de mercado sustentando uma “indústria cultural”, o que eleva os níveis da produção cultural para níveis superiores aos da atividade artesanal comunitária, incluindo-a, mas ampliando sua abrangência.

No caso do Brasil, depois dos anos sessenta, quando a cultura entrou em choque com os objetivos do regime militar, seu desenvolvimento foi suprimido aos níveis do submundo, deixando de ser possível a sustentabilidade comercial das atividades culturais.

Foi então que, na década de noventa, promulgou-se a Lei nº 8313/91, nominada ROUANET, em função de seu idealizador Sérgio Paulo Rouanet, e que pretendia fomentar a produção cultural do país por meio do mecanismo de renúncia fiscal do Imposto de Renda.

De fato, foi preponderante para a alavancagem da mobilização produtiva, pois inseria a iniciativa privada como co-participante, ao lado dos produtores culturais e do Estado, como mobilizador e mensurador de resultados sociais.

Originalmente, o financiamento se dava em proporção, onde o estado propiciava por meio da renúncia fiscal, algo em torno de setenta por cento e a iniciativa privada o restante, trinta por cento.

Algo importante decorre da avaliação dos projetos pelo Ministério da Cultura, a oportunidade de financiamento da produção, mas paralelamente a validação do produto cultural como apto a ser oferecido ao consumo, por suas características gerais e intrínsecas.

Contudo, em certo momento, uma alteração na norma criou situação diferenciada de incentivo, onde até cem por cento do projeto é financiado através de renúncia fiscal, para incentivar mais ativamente algumas áreas de cultura, tais como: a) artes cênicas; b) livros de valor artístico, literário ou humanístico; c) música erudita ou instrumental; d) exposições de artes visuais; e) doações de acervos para bibliotecas públicas, museus, arquivos públicos e cinematecas, bem como treinamento de pessoal e aquisição de equipamentos para a manutenção desses acervos; f) produção de obras cinematográficas e videofonográficas de curta e média metragem e preservação e difusão do acervo audiovisual; g) preservação do patrimônio cultural material e imaterial; h) construção e manutenção de salas de cinema e teatro, que poderão funcionar também como centros culturais comunitários, em Municípios com menos de 100.000 (cem mil) habitantes.

Até certo momento isso foi positivo, porém, com o tempo, verificou-se grande desvirtuamento de objetivos, reduzindo-se o interesse dos patrocinadores apenas a projetos que possuam essas características, em função da amplitude do incentivo integral, desprezando-se os demais projetos com incentivo reduzido.
Isso significa que a maioria dos patrocinadores passaram a se interessar somente quando não tinham mais que investir recursos de marketing seus, acabando o Estado a ser o único investidor. Há projeto de nova lei cultural revendo essa distorção.
Além disso, alguns estados federados possuem suas legislações de incentivo com base no ICM e municípios com base no IPTU/ISS.

Projetos ligados ao Patrimônio Cultural, como o Parque Histórico de Carambeí são excelentes exemplos de uso positivo do incentivo fiscal, pois retornam para a sociedade quase gratuitamente o resultado do fomento.


Fábio André Chedid Silvestre
Advogado, Especialista em Direito Empresarial, Mestre em Engenharia de Produção e Sistemas, Curador do Parque Histórico de Carambeí e Sócio Proprietário do Núcleo de Mídia e Conhecimento



Acesse aqui a matéria "Campos Gerais: um Paraná a ser conhecido" publicada originalmente na edição 26 da Revista Geração Sustentável e traz o exemplo de sustentabilidade do Parque Histórico de Carambeí - Jornalista: Letícia Ferreira

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Veja outros conteúdos dessa edição:

Matérias:
Entrevista: Elisa Prado (Tetra Pak)
Capa: Campos Gerais: um Paraná a ser conhecido
Visão Sustentável: Produtos concentrados fazem bem ao meio ambiente
Desenvolvimento Local: Setor de sustentabilidade ganha representatividade no Brasil
Responsabilidade Social: Paraná se mobiliza para o desenvolvimento sustentável
Gestão de Resíduos: Crianças aprendem a dar outro destino aos resíduos orgânicos
Energias Renováveis: Cenário para comercialização de carros elétricos no Brasil ainda não é favorável

Artigos:
Leandro F. Bastos Martins: Promessa é dívida?
Jeronimo Mendes - Inovação e espírito empreendedor
Antenor Demeterco Neto - Logística e desenvolvimento econômico sustentável?
Gastão Octávio da Luz - Desafios Globais ao "desenvolvimento sustentável"

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sábado, 3 de setembro de 2011

A crise e a aposta de Ignacy Sachs para a Rio+20

A crise e a aposta de Ignacy Sachs para a Rio+20

Há cinco anos, o mundo quase não encontra tempo para respirar. Manchetes em cascata regurgitam evidências de um magma em erupção. Desde a eclosão da crise imobiliária nos EUA, a partir de 2007, os fatos se precipitam a uma velocidade que não deixa dúvida: a história apertou o passo. Na ventania desordenada surgem os contornos de uma crise sistêmica . Restrita aos seus próprios termos, a engrenagem das finanças desreguladas não dispõe de uma alternativa para o próprio colapso. Uma crise se desdobra em outra. Iniciativas convencionais e cúpulas decisivas adquirem a validade de um pote de iogurte.

A desigualdade construída em 30 anos de supremacia dos mercados sobre o escrutínio da sociedade cobra sua fatura. Populações asfixiadas acodem às ruas. Governos se escudam em mais arrocho. Conquistar a confiança dos capitais semeia a desconfiança na política e o descrédito na democracia.

Nessa rota de colisão, a urgência ambiental tem um encontro marcado no Brasil em 2012: o país sediará a Cúpula da Terra, o mais importante fórum da ONU sobre as agendas, compromissos e diretrizes para reconciliar o desenvolvimento e o meio ambiente.

O que a sustentabilidade do século XXI pode esperar de Estados inabilitados para sustentar a própria contabilidade? Ou de governantes incapazes de se equilibrar sobre os próprios compromissos com os eleitores?

O professor Ignacy Sachs, economista e sociólogo, nascido na Polônia, naturalizado francês, brasileiro de coração não se impressiona com a metralhadora giratória dos impasses. ‘Digo que vivemos hoje uma dinâmica distinta daquela da Eco-Rio 92. E por incrível que pareça, talvez mais favorável ’, sentencia num claro desafio ao senso comum do desespero.

Governo, movimentos, partidos e entidades civis dispõem de pouco tempo, até outubro, para entregar a contribuição brasileira à conferência da ONU.

É aconselhável ouvir o que Sachs tem a dizer. Não é a voz de um personalismo. Mas o testemunho de um trunfo histórico: Sachs encarna o elo entre forças e agendas ainda desencontradas, mas de cuja afinidade depende em grande parte o êxito ou o fracasso da intervenção brasileira na Rio-2012 e, por que não, da própria cúpula.

O diálogo nem sempre fácil entre desenvolvimentistas, ambientalistas e a esquerda encontra na história desse workaholic de 84 anos, que vive entre o Brasil e a França, um idioma de pontos de convergência. Ele mistura desassombro e pragmatismo ancorados na experiência que adensa valores, em vez de descartá-los.

Sachs aportou no Brasil pela primeira vez em janeiro de 1941. Era o último navio de rota que saía de Portugal antes da interdição bélica dos oceanos ocupados por submarinos, minas e mísseis. Menino ainda, fugitivo de uma Polônia invadida pelo alemães, viu com encantamento o amanhecer na baia da Guanabara. “Contei os edifícios do navio, eram 42; em Varsóvia tínhamos apenas um. O Rio era o oposto daquele país atrasado que nos diziam, onde os macacos andavam pela rua. Era muito mais avançado que Varsóvia’.

O desassombro diante da vida moldou a sua inserção na história e as suas intervenções no mundo.

Neto de um avô banqueiro, alfabetizado numa Polônia nacionalista que se orgulhava de sua imbatível cavalaria, tão inexpugnável quanto a linha Marginaux, viu a família evadir-se de Varsóvia em 5 de setembro de 1939 levando apenas a bagagem de mão. “Deixamos para trás até o cachorro, Trol’. Seria um retiro de alguns semanas no campo, dizia o avô confiante –até que a valorosa cavalaria polonesa vencesse os tanques alemães. “O intervalo foi maior. Meu avô era um homem das finanças, portanto, bem informado, mas a história quando se move o faz com uma velocidade espantosa. Para o bem e para o mal. Sua capacidade de surpreender é impressionante ”, pondera Sachs.

Para atualizar os mais jovens, os muito céticos e, ao mesmo tempo, os cegos de otimismo ele explica: “Dias antes, talvez uma semana antes de Hitler invadir a Polônia, Molotov e Ribbentrop , respectivamente chanceleres russo e alemão, haviam assinado o pacto de não agressão. Deu-se o oposto: Hitler a invadiria a Polônia e dezesseis dias depois a Rússia ocuparia o país. Saímos de casa para um breve retorno, com base nos fatos e informações de 1º de setembro. A guerra mundial estendeu-se por anos; matou 40 milhões de pessoas’.

Ignacy Sachs voltaria a Polônia em 1954 para comprovar que a história de fato não se submete a roteiros lineares. Em 1960, o neto de banqueiros trabalhava no planejamento socialista do país liderado pelo economista Michael Kalecki, hoje reconhecido como um precursor de Keynes. De novo, a história fez das suas. Kalecki escrevia em polonês, não em inglês. Quem ficou famoso com as mesmas idéias foi Keynes.

Sachs trabalhou com Kalecki de 1960 a 1968. Dois anos depois ele estava em Osaka, no Japão, ao lado do economista Shigeto Tsuru, estudioso japones do marxismo. Testemunhou e discutiu ali um dos mais emblemáticos acidentes ecológicos do século XX: o desastre de Minamata. A contaminação por mercúrio industrial na baía com aquele nome matou 900 pessoas. Afetaria mais de dois milhões de japoneses que se alimentaram de peixes do lugar.

Desde então Sachs participaria ativamente dos eventos divisores da agenda ambiental, como a reunião de Estocolmo, em 1972 e, naturalmente, da Rio-92.

O que o torna uma ponte importante para certos impasses da agenda ambiental, é que – ao contrário de muitos – ele não renunciou a uma formação ecumênica.

Desenvolvimentista, como Celso Furtado, aliou à agenda do crescimento os valores da justiça social. Adepto do planejamento, renovou essa ferramenta despindo-a do autoritarismo tecnocrático para vesti-la com o diálogo entre as vozes da cidadania, mediadas pela harmonização do poder público. Ao conjunto adicionou o que denomina ‘imperativo do equilíbrio ambiental’.

De certa forma sua biografia realiza a fusão de que se ressentem tanto os desenvolvimentistas, a esquerda e os ambientalistas na busca de uma convergência capaz de renovar a plataforma da luta política em nosso tempo.

É dessa arquitetura histórica que ele critica o ressurgimento malthusiano que contamina certo ambientalismo, adepto do decrescimento para dizer: ‘se acham que a humanidade passou do ponto, tirem as consequências disso: como será feita a eliminação do excesso?’.

A seguir, os principais trechos da conversa de Carta Maior com Ignacy Sachs:

Carta Maior – Em 1992, a Cúpula da Terra, no Rio, foi atropelada pela emergência do ciclo neoliberal. A Cúpula de 2012 acontece em meio a maior crise do capitalismo desde 1929. De novo vamos na contramão?

Ignacy Sachs – De fato, a Rio-92 foi uma grande conferência com uma agenda bastante razoável, mas que coincidiu com o fim da União Soviética e a emergência da onda neoliberal que varreu o mundo. O resultado é que de lá para cá nós não avançamos, nós recuamos.

CM – Que marcos o senhor destacaria nesse retrocesso?

IS – Bom, tivemos Bush! A guerra do Iraque… e tudo o que se originou dessa correlação de forças em termos de consequências ambientais. A Rio-92 aconteceu na contramão da história.

CM – Agora, a cúpula de 2012 será atropelada pela crise?

IS – Embora o tempo para prepará-la seja muito, muito pequeno e isso condicione o que podemos pensar em termos de agenda brasileira, talvez ela ocorra num porvir histórico mais favorável.

CM – Mas a crise atual acua governos e muitos se aferram à radicalização dos mesmos princípios que a originaram…

IS – A crise é a evidência contundente de que a receita neoliberal fracassou. E isso com certeza amplia o campo para se propor uma outra visão do futuro.

CM – Qual visão?

IS – Comecemos pelo que se pode querer da conferência. Em primeiro lugar, a Rio-2012 deve ser um ponto de ordenação de agendas. Os países membros das Nações Unidas devem sair dela comprometidos a trazer, num prazo de dois anos, seus planos de desenvolvimento sustentável e socialmente inclusivos. Ao mesmo tempo, é imprescindível reconstruir ferramentas institucionais. É preciso reposicionar a velha casa das Nações Unidas para as gigantescas tarefas que temos diante de nós.

CM – O que isso significa em termos práticos?

IS – Significa que sem dinheiro não iremos a lugar algum, muito menos a um mundo sustentável. É necessário resgatar a agenda de construção de um fundo para o desenvolvimento inclusivo e sustentável dos países mais pobres. Não cumprimos essa etapa no passado, ela sempre volta; terá que ser enfrentada agora. Nos anos 60/70 tínhamos a meta do famoso ‘1%’ dos países ricos para financiar a emancipação das nações pobres. Acho imprescindível retomá-la.

CM – Mas nem para a fome no Chifre da África há recursos …

IS – Nunca chegamos perto desse 1%. No melhor dos momentos apenas alguns países escandinavos se aproximaram de 0,8%, algo assim.

CM – Em pleno florescer do arrocho fiscal é viável resgatar essa agenda?

IS – Arrocho fiscal diante de uma crise como essa é um despropósito. Um náufrago agarra qualquer coisa que tenha pela frente, o que não significa que irá se salvar. O que estamos vendo é o oposto do que recomenda o bom senso e o keynesianismo. Não terá êxito. Vejo cinco portas de abertura para a criação de um financiamento adequado às metas de Rio-2012. A primeira, retomar a agenda do famoso 1% dos ricos; a segunda, criar uma taxa sobre emissão de carbono; a terceira, e creio que o momento é muito favorável, retomar a campanha pela taxa Tobin sobre transações financeiras; a quarta, e essa é uma sugestão minha: instituir pedágios sobre oceanos e ares, um percentual mínimo sobre passagens aéreas e marítimas; a quinta, multiplicar acordos plurianuais de comércio internacional, sobretudo de commodities, para estabilizar fluxos e preços e reduzir as flutuações especulativas que causam inflação e fome. Aqui abre-se espaço para resgatar uma proposta de autoria do Kalecki, feita na primeira Unctad, em 1964.

CM – Qual?

IS – A idéia é que nesses acordos comerciais de longo prazo, os preços das commodities tenham cláusula de reajuste bianual. As correções baseadas em médias de bolsas sofreriam um abate de 50% para cima e para baixo: se aumentar 10%, só aumenta 5%; se cai 10% só cai 5%. Com isso se atinge o objetivo de atenuar as flutuações.

CM – Isso tudo pode ser a proposta brasileira na Rio-2012?

IS – Poderia. Mas não acho que teremos um consenso no curto tempo disponível. Não é o fundamental. Insisto que a cúpula do Rio tenha uma natureza deflagradora e organizadora. Que seja capaz de fomentar planos a serem debatidos numa segunda rodada. Os americanos quando fizeram a Aliança para o Progresso, cujo objetivo era combater a Revolução Cubana, acabaram fomentando planos de desenvolvimento local. É um pouco esse efeito que devemos buscar agora para recolocar a agenda ambiental numa mesa ocupada exclusivamente pelas urgências da crise econômica.

CM – O grande ponto de divergência hoje, que divide inclusive esquerda e ambientalistas – e estes e os desenvolvimentistas – é quem vai arcar com o sacrifício do desenvolvimento sustentável. Ou seja, quem vai cortar emissões e quanto?

IS – A resposta é o conceito de pegada ecológica (per capita). Alguns povos, sobretudo países pobres e em desenvolvimento, ainda tem espaço potencial para expandir a pegada; outros, os ricos, terão que reduzi-la. A criação de emprego digno e decente deve pautar tanto a expansão quanto a geração de vagas alternativas no esforço para reduzir a pegada ecológica. Esses elementos devem pautar a formulação dos planos de desenvolvimento sustentáveis e inclusivos em esfera nacional. Posteriormente, eles seriam harmonizados em dimensão global.

CM – Além de afrontar a lógica neoliberal, recolocando o planejamento, a sustentabilidade e a justiça social na mesa da crise, que outra marca política forte terá a Rio-2012?

IS – Será a 1º conferência do Antropoceno assumido.

CM – Como assim?

IS – Ao contrário do passado, quando ainda se discutia a influência ou não do homem no metabolismo planetário, agora não há mais dúvidas. Grupos científicos consolidarão até 2012 a evidencia irrefutável – para quem ainda duvida – de que vivemos no Antropoceno. Ou seja, a influência humana pesa de maneira decisiva no comportamento do ambiente terrestre. É o reconhecimento tardio, com dois séculos de atraso, de algo que ocorre desde a Revolução industrial. Mas é um divisor político com desdobramentos importantes.

CM – Por exemplo?

IS – Uma conferência com esse escopo deve ir necessariamente à raiz dos desafios e das responsabilidades. Temos que assumir essa responsabilidade com humildade. Nossa influência é preponderante, mas não somos deuses. Não temos o poder de governar a natureza.

CM – A aceitação do marco antropocênico não pode, ao mesmo tempo, fortalecer catastrofistas, neomalthusianos e similares; enfim, aqueles que recusam o desenvolvimento?

IS – Nós não estamos vivendo uma catástrofe irreversível. Podemos planejar o desenvolvimento sustentável e inclusivo. O catastrofismo e o malthusianismo não se justificam.

CM – A agenda da descarbonização, por exemplo, frequentemente soa como um pedido de renúncia ao crescimento.

IS – Minha posição é muito firme. As teses do decrescimento não procedem. Podemos e devemos crescer. O que é preciso é mudar os rumos do desenvolvimento para que ele seja inclusivo socialmente; e, número dois, tenha baixo impacto ambiental. Para isso é necessário planejamento, com ampla participação da sociedade.

CM – Falar em decrescer significa, por exemplo, deixar fora da discussão ambiental a China, que hoje é a fábrica do mundo…

IS – Descarbonizar a dieta de um camponês chinês e deixar livre o dono de um iate, que se desloca de jatinho de Nova Iorque para velejar na Flórida, é um absurdo. Ademais, não se trata de descarbonizar genericamente. Mas, sim, de renovar a agenda do desenvolvimentismo com base em inclusão e baixo impacto ecológico. A descarbonização será a decorrência desse processo. Não uma restrição antecedente que esmaga quem ainda vive na pobreza.

CM – A ressurgência neomalthusiana forma uma corrente cada vez mais forte; que riscos acarreta ao ambientalismo?

IS – Minha resposta a quem diz que não dá mais, ou seja, que o planeta ficará inviável com 9 bilhões de habitantes é a seguinte: extraia as consequências desse postulado.

CM – Quais são elas?

IS – Estão na obra de Jonathan Swift (*Em 1729, o escritor Jonathan Swift, autor das ‘Viagens de Gulliver, apresentou o que chamou de “modesta proposta” para resolver o problema da infância abandonada no seu país. Famílias pobres venderiam seus filhos para serem degustados como fina iguaria pelas famílias ricas. Segundo ele, sua “modesta proposta” daria renda aos pobres e uma nova delícia gastronômica à nobreza, criaria empregos na rede hoteleira e tiraria da rua a infância abandonada).

CM – Esse é o cardápio oculto do neomalthusianismo?

IS – Sim, e se o diagnostico é esse, vamos dar-lhe as devidas consequências: será por sorteio, por meio de uma guerra nuclear ou através da modesta proposta de Swift? Qual será o método de eliminação do excesso? Infelizmente, há muita gente que pensa de forma malthusiana. Tive uma discussão desse tipo com o oceanógrafo Jacques-Yves Cousteau; Lovelock também pensa assim.

CM – A tese da descarbonização embute esse risco?

IS – Temos que encarar esse debate seriamente. Mesmo porque a população vai a 9 bilhões, isso está escrito no mapa de percurso da humanidade. Está dado. A pergunta é: podemos ter uma vida razoável com 9 bilhões? Eu acredito que sim, dentro dos parâmetros com os quais qualificamos a nova agenda do desenvolvimento. Agora, podemos ter a mesma qualidade ambiental e social com 90 bilhões de pessoas? Não. Mas a verdade é que uma multiplicação descontrolada como essa apenas evidenciaria a síndrome de um desequilíbrio. A miséria é uma de suas características. A estabilidade demográfica, em contrapartida, ocorre progressivamente desde que outras variáveis estejam presentes, entre elas eliminação da pobreza.

CM – A Europa que já foi importante aliada da agenda ambiental vive um trágico crepúsculo da social-democracia, colonizada pelo neoliberalismo. Isso vai atrapalhar a Rio-2012?

IS – Não vejo a Europa à beira de uma guerra como no final dos anos 30, mas vejo-a, entristecido, perder sua aderência política à idéia de solidariedade. O que ocorre dentro da próprio UE, com os ricos se afastando os mais pobres. Assistimos à emergência de um perigoso egoísmo social. Até prova em contrário, acredito que a solidariedade é um sentimento intrínseco ao fato humano. Ou então teríamos que abraçar a teoria de Hobbes: o homem é o lobo do homem. O capitalismo puro e duro sim, é isso. Daí a necessidade de organizar os contrapesos.

CM – A social-democracia européia renunciou ao social e ao ambiental?

IS – A social-democracia perdeu o rumo há muito tempo. Eles não entenderam o neoliberalismo, quiseram surfar na onda, agora estão encrencados e muitos divididos. As respostas que deram à crise não foram pela esquerda.

CM – Diante da tarefa imensa que é planejar o Antropoceno esse acanhamento europeu não o deixa pessimista?

IS – É muito difícil prever o desfecho político de uma crise dessas proporções. É verdade que ela nos pega despreparados. Não tivemos êxito em reconstruir uma verdadeira organização cooperativa mundial, por exemplo. Pior, regredimos em inúmeras frentes. Estamos muito longe, também, do paradigma fiscal introduzido por Roosevelt nos EUA. Enfim, vivemos uma crise sem um New Deal. No entanto, as coisas mudam muito rapidamente. Veja a crise de 29. Em 36, tivemos a vitória da Frente Popular, na França; em 38, tivemos o acordo de Munique entre França Alemanha e Inglaterra. Em 39 a invasão da Polônia… Ao mesmo tempo, quem teria acreditado em 1987 que dois anos depois a União Soviética desmoronaria? A história quando se movimenta o faz com rapidez e de forma muito distinta dos modelos preconcebidos. Há um espaço para a Eco-2012 e ele pode se ampliar rapidamente. É necessário estar preparado.

Por Saul Leblon, da Carta Maior
Fonte: Instituo Ethos

quarta-feira, 6 de julho de 2011

CURSO GESTÃO DE NEGÓCIOS EM ENERGIA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

A Universidade Tuiuti do Paraná está ofertando o curso de especialização Lato Sensu em Gestão de Negócios em Energia e Desenvolvimento Sustentável, com início previsto para 06/08/2011 e término em 27/10/2012. As aulas serão ministradas às sextas-feiras à noite e sábados pela manhã e parte da tarde, com intervalos semanais intercalados entres as disciplinas.

O objetivo do curso é capacitar profissionais que atuam na indústria em geral ou no setor de energia e que necessitam de conhecimentos teóricos e práticos sobre regulação, tarifas e comercialização de energia elétrica, com vistas a desenvolver uma clara compreensão da regulamentação do setor elétrico de forma estruturada.

O curso é destinado aos profissionais que exerçam funções para as quais é indispensável visão panorâmica do setor de energia, com ênfase no elétrico. Gestores e Analistas que percebam a importância do aprofundamento do conhecimento da regulamentação do setor energético no seu desenvolvimento profissional. Profissionais liberais diversos que visam abrir novas possibilidades de atuação. Egressos de cursos superiores das áreas das Engenharias, Direito, Administração, Economia, e Profissionais das Áreas Tecnológicas que tenham interesse em adquirir conhecimento em Gestão de Energia Elétrica, Meio Ambiente, Eficiência Energética, Fontes Renováveis de Energia e Sustentabilidade.

O curso está organizado em 14 (quatorze) disciplinas que serão ministradas por
profissionais mestres e doutores com experiência na indústria e no mercado de energia e sustentabilidade, com uma carga horária total em sala de aula de 370 horas, mais estudos dirigidos e seminários sobre os temas Energia e Sustentabilidade.

As inscrições deverão ser realizadas diretamente no site do Curso:
http://especializacao.utp.br/index.php/ciencias-exatas-e-de-tecnologia/gestao-de-negocios-em-energia-e-desenvolvimento-sustentavel

O valor para inscrição é de R$ 50,00 e o valor do investimento será dividido em 18 parcelas de R$ 530,00.

Início: 06/08/2011 - Término: 27/10/2012
As aulas são semanais, sempre aos Sábados (8h às 12h – 13h30 às 17h30), com intervalos de uma semana após o fechamento de cada disciplina.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

SHOPPING DE CURITIBA GANHA ARES DE SUSTENTABILIDADE

Ampliação do Shopping Total que acaba de ser inaugurada seguiu princípios da construção sustentável

Foram 15 meses de obras, à partir das escavações que começaram em dezembro de 2009 até a entrega total da terceira ampliação, há poucos dias. O Shopping Total ganhou uma ala de 33.500 m² com 45 novas lojas, espaços para quiosques, um inédito center lar e 5 níveis com garagens sendo que passa a contar agora com uma área integrada de mais de 72 mil m², constituindo-se no maior shopping de descontos do país. Uma das principais características desta obra é o fato de ter sido feita seguindo princípios da sustentabilidade, tendência mundial de respeito ao meio ambiente que se firma cada vez mais também no Brasil: a construção civil convencional é o maior gerador de resíduos do planeta; toma entre 20% a 50% de todos os recursos naturais e devolve por ano entre 300 – 500 kg de resíduos por habitante (Sjöström, 1996 e Alexandre Gusmão – UPE/POLI). Já o setor da construção sustentável, greenbuilding em inglês, saltou de 10 bilhões de dólares em 2005 para 236 bilhões em 2011; um crescimento de 2.260% em menos de uma década, só nos Estados Unidos.

“O mais importante de uma construção para ser considerada sustentável é seguir princípios, que é onde tudo principia, indo muito além e acima do certo vs. errado. Portanto, o mais importante é estabelecer uma visão sistêmica do todo, compreendendo e respeitando as relações de causa e efeito para o entorno, a sociedade e o planeta: desde o planejamento criterioso dos possíveis impactos ambientais de cada etapa construtiva, passando pelo aproveitamento passivo dos recursos naturais (como a posição do sol para isolamento e/ou aquecimento e iluminação natural assim como a direção dos ventos), eficiência energética (inclusive desde os processos produtivos e suas emissões de Carbono das fábricas fornecedoras dos materiais de construção), gestão e economia da água, gerenciamento dos resíduos na edificação, qualidade do ar e do ambiente interior, conforto termo-acústico, uso racional e consciente de materiais, aplicação sempre que viável de produtos e tecnologias ambientalmente corretos, desempenho econômico da edificação e inclusive a formação de um novo estado de consciência dos usuários em que o SER é mais importante do que o TER”, destaca o administrador Cleuton Carrijo, copresidente executivo da SUSTENTÁBIL Construções de Alto Desempenho Ambiental.


Um dos elementos que aproximam a obra do que se considera ‘sustentável’ é o fato de ela ter sido executada com base em um criterioso Plano de Gerenciamento de Resíduos da Construção Civil – que podem representar uma economia média de até 70%, de acordo com recente estudo da Universidade de Washington - não só para cumprir o que a lei exige para obras acima de 3 mil metros quadrados, mas primando pela triagem na origem (desde o canteiro de obras), reciclagem, reaproveitamento de materiais e correta destinação dos resíduos com a respectiva rastreabilidade - metodologia aprimorada pela construtora SUSTENTÁBIL e que vem sendo aplicada para toda e qualquer metragem de obra que executa para seus clientes. “Tudo é reciclável e pode ser destinado corretamente, apesar de não existirem leis no país nem no estado do Paraná, como na Inglaterra, que incentivem a adoção das melhores práticas da construção sustentável, tendo este processo no Brasil ainda um custo relativo elevado”, comenta Carlos Alberto da Costa, responsável técnico pela obra e também copresidente, no comando das operações da SUSTENTÁBIL lembrando inclusive que, hoje em dia, o mercado de reciclagem e reaproveitamento de RCC é uma realidade. “O que antes era subproduto hoje é considerado diferenciado, como a madeira de demolição e a caliça”, argumenta.


A ideia de que “tudo é reciclável” foi levada muito a sério na obra de ampliação do Shopping Total. Além das tubulações de incêndio e escadas rolantes recicladas, também a caliça formada por restos de concreto, argamassa e areia, foi encaminhada para ser triturada e assim poder ser reutilizada pelo mercado em novas construções ou estradas. “O que foi retirado da área do antigo pátio de estacionamento durante as escavações como a camada asfáltica, solo e saibro, parte foi encaminhado para recuperação ambiental de áreas degradadas e boa parte foi armazenada e reaproveitada na própria base dos pavimentos internos. Outro elemento importante, foi a utilização de estruturas pré-fabricadas de concreto e estruturas metálicas nas escadas, materiais facilmente recicláveis. A tecnologia de pré-moldados adotada neste projeto permite um ganho de velocidade no cronograma de entrega de uma obra com estas características, onde os lojistas estão aguardando para iniciar suas operações de varejo”, afirma Carlos Alberto.


Na ampliação do Shopping Total, outros aspectos também apontam para a ideia de promover a sustentabilidade: cinco caixas d’água de 15 mil litros cada foram instaladas, para captação da água de chuva dos telhados, armazenamento em cisterna e reaproveitamento para utilização nos vasos sanitários e rega das plantas do novo jardim de inverno interior. Parte da água consumida no Shopping vem de um poço artesiano, com a respectiva documentação de outorga. Falar de sustentabilidade na construção civil trata-se, de acordo com os empresários, de uma mudança de hábitos e comportamentos de ‘consumo suficiente’, alinhados à uma tendência mundial que é irreversível. “Em breve, não se falará mais em ‘construção sustentável’ e sim apenas em ‘construção’, pois cremos que todas as obras seguirão esses princípios – o que seria preferível que fosse pela força do aculturamento e não pela força da lei”, afirma Carlos Alberto. Terminada a ampliação do Shopping Total, a obra vai passar agora pela análise de uma auditoria ambiental externa independente, a qual irá verificar todos os procedimentos adotados e deverá emitir um laudo de conformidade ambiental. Todo e qualquer princípio de sustentabilidade se mistura à ideia de continuidade da própria vida, garantindo o máximo bem-estar com o mínimo desperdício energético. É um legado para as próximas gerações que todos podemos aprender e adotar desde já.




Fonte: http://www.adrianewerner.com.br/ – (41) 3082-8882


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O Brasil pode crescer sem agredir o ambiente?

Tudo indica que o país crescerá em ritmo chinês nos próximos anos. O desafio é fazer isso sem degradar o meio ambiente, como aconteceu na China!

O Brasil vive um de seus melhores momentos na economia. Este ano que se encerra é o décimo sexto de estabilidade monetária. Desde o milagre econômico, nos anos 70, o país não usufrui de tantos anos de crescimento continuado. Com exceção de 2009, marcado pela retração global, o ritmo de expansão da economia nos últimos três anos
foi superior a 5%. A previsão de crescimento em 2010 é de 7,5% — uma aceleração ao estilo chinês.

Dentro desse contexto animador, emerge uma preocupação. É possível manter esse desempenho vigoroso de forma sustentável? Em outras palavras, sem agredir a natureza nem arruinar os recursos naturais do país. O crescimento econômico só tem vantagens. Promove o aumento do emprego, da renda e dá dignidade à vida de um povo. Se o preço a pagar por isso, contudo, for a degradação do ambiente em que vivemos, o prejuízo será duplo: a perda de nossa qualidade de vida e um futuro incerto para as próximas gerações.

A história é pouco animadora no que diz respeito a crescer sem degradar. Desde que o Homohabilis construiu as primeiras ferramentas de pedra, há 2 milhões de anos, a ordem natural foi submetida à vontade humana. A rigor, não há produção sem destruição. Nos ultimo’s 8 000 anos, com a invenção da agricultura e das cidades, o impacto do homem na natureza tornou-se significativo. Com o início da revolução Industrial, há dois séculos, nossa capacidade de extrair recursos naturais aumentou a ponto de desfigurar a face do planeta. os países desenvolvidos são exemplos recentes dessa logística. A Europa detinha 7% das florestas do planeta e hoje conta com mísero 0,1%. Nos Estados Unidos, quase não há mais terras disponíveis para produzir alimentos.

A China amarga as consequências do crescimento a qualquer custo das últimas décadas. Um terço dos rios e 75% dos lagos do país estão contaminados. Das vinte cidades mais poluídas do mundo, dezesseis são chinesas. mais de 750 000 pessoas morrem por ano em decorrência da água e do ar pútridos no país. As fábricas movidas a carvão criaram vilarejos doentes, nos quais a taxa de tumores malignos é altíssima. A história a ser contada daqui a vinte, trinta anos, que incluirá a experiência brasileira e seu processo de desenvolvimento, pode ser bem diferente. o Brasil entra na sua fase de maior crescimento econômico prolongado em um período sem precedentes de conscientização sobre a necessidade de preservação ambiental. “Hoje o modelo é outro. Parece paradoxal, mas não há mais como crescer sem preservar o meio ambiente ou, pelo menos, sem diminuir o impacto causado pela produção”, diz o economista Americano Jeffrey Sachs. “Ou fazemos essa transição para a sustentabilidade, imposta pela crise global de 2008, que se resume na desaceleração do impacto ambiental, ou estaremos fadados a desaparecer”, conclui.

Os desafios brasileiros para crescer e, ao mesmo tempo, se adequar a esse novo modelo sustentável de mundo são enormes. Será preciso expandir a agropecuária sem desmatar a Amazônia, suplementar a geração de energia, investir bilhões em infraestrutura — desde a básica, como saneamento, até a modernização de portos e aeroportos. Uma das chaves para que tudo isso ocorra de forma sustentável é a inovação tecnológica. “Inovação tecnológica só existe se há aumento do consumo, aumento da produção e da riqueza de um país. Nenhuma nação em frangalhos tem condições de promover a inovação, muito menos sustentabilidade”, diz Maílson da Nóbrega, consultor e ex-ministro da Fazenda. Esse pensamento combina com a teoria da “curva ambiental de Kuznets”, uma adaptação do trabalho do economista Simon Kuznets, ganhador do Nobel de 1971. Proposta pelos economistas da Universidade Princeton Gene Grossman e Alan Krueger, a teoria sustenta que a poluição e os impactos ambientais evoluem nas sociedades industriais seguindo uma curva em forma de “U” invertido, ou seja, a degradação da natureza aumenta durante os estágios iniciais do desenvolvimento de uma nação, mas se estabiliza e começa a decrescer quando o nível de renda e de educação da população aumenta.

No Brasil, poucos setores representam tão bem o poder da inovação quanto o agropecuário. Hoje, é possível dobrar a produção agropecuária sem derrubar uma árvore da Amazônia. De acordo com dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), entre 1996 e 2006 houve uma redução de 10,7% nas áreas de pastagem. No mesmo período, o rebanho bovino cresceu 12% e a produção de carne, 70%. Em dez anos, a produtividade por hectare da cana-de-açúcar saltou de 49 para 80 toneladas. Com tecnologia adequada, é possível produzir muito mais. Técnicos estimam que a produtividade da soja poderia aumentar 50% só com o uso correto da irrigação. Também graças à inovação, a cana-de-açúcar é o produto agrícola que mais cresce no país. Hoje, os canaviais ocupam 8 milhões de hectares. Para a cana ganhar o Mercado internacional de etanol e se tornar uma alternativa ao petróleo, será necessário aumentar sua produção.

“Isso só pode acontecer sem desmatamento se houver aumento na produtividade e melhoramento genético da cana”, diz o biólogo Fernando Reinach, um dos mais conceituados especialistas brasileiros em tecnologia para o agronegócio. “O problema é que, no Brasil, sai mais barato desmatar do que investir em tecnologia. Isso sem falar na falta de incentivos e nas falhas de nossa legislação”, diz a senadora Kátia Abreu, presidente da CNA. A fronteira agrícola nacional avança a passos largos sobre a Floresta Amazônica. De acordo com a FAO, o país é o que mais desmata no mundo. Entre 2000 e 2009, a participação brasileira no desmatamento mundial au mentou de 18% para 20%. Mais de 2,6 milhões de hectares de floresta foram destruídos no período.

Preservar a Amazônia não é balela de ambientalista. É uma questão de sobrevivência. A Amazônia detém a maior biodiversidade do planeta e o maior e mais diverso estuário do mundo. A rede hidrográfica da região tem um potencial energético de 70 gigawatts, metade do potencial nacional. O fim da floresta mudaria o regime de chuvas em toda a América do Sul, com prejuízos para a agricultura e para a geração de energia — duas coisas de que o Brasil vai precisar muito se quiser crescer. Se os desafios são grandes, as oportunidades também o são. Um estudo do Banco Mundial aponta o Brasil como o provável líder de uma nova economia verde, capaz de reduzir as emissões de gases do efeito estufa em 37% (o equivalente a tirar da rua todos os carros do mundo por um período de três anos) sem comprometer o crescimento, a criação de empregos e o desenvolvimento nas próximas duas décadas. No exterior, a expectativa é que o Brasil contribua de forma contundente para suprir a crescente demanda mundial de alimentos e também para uma solução energética, por meio do etanol. “Só será possível assumir esse papel e competir com outras economias emergentes se houver o dobro de investimentos em infraestrutura”, diz Paulo Resende, coordenador do Núcleo de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral.

Para um crescimento anual de 5% na próxima década, os valores destinados ao segmento deverão girar em torno de 4% do PIB ao ano, ante os 2% destinados atualmente. A China investe 7,3% do PIB e a Tailândia, 15,2%. “De todas as obras, nenhuma é tão importante quanto as de saneamento básico”, diz o economista José Eli da Veiga, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo. “É inadmissível que a oitava economia do mundo mantenha metade da população sem direito a rede de esgoto. Investir em saneamento é optar por um crescimento de qualidade, pois isso tem um efeito multi- plicador”, avalia.

Fazer tudo de forma correta e sustentável é possível? Os economistas e especialistas em sustentabilidade ouvidos por VEJA para esta reportagem são unânimes em dizer que sim. Há tecnologias de primeira linha para expandir o agronegócio e o setor energético. Ao contrário de outros países, temos a felicidade de dispor de reservas ambientais. Todos eles concordam com a seguinte ponderação: para chegar lá, é preciso mudar de atitude quanto antes. Devido às facilidades que a natureza oferece ao país, governantes, empresários e até mesmo a população tendem a agir de forma inconsequente em relação ao futuro e a adiar a adoção de práticas para preservar o que ainda temos. Para o Brasil crescer com qualidade, é preciso cuidar do que a natureza nos deu de graça.


Fonte: http://www.planetasustentavel.com.br/

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O lugar do desenvolvimento sustentável nas eleições

Levantamento da Geração Sustentável entre presidenciáveis constata mais diretrizes que programas para sustentabilidade

Qual é o destaque que o assunto desenvolvimento sustentável possui nos programas de governo dos principais candidatos à presidência do Brasil? A partir dessa pergunta, a Geração Sustentável procurou nos materiais de divulgação das campanhas as propostas dos três concorrentes ao cargo com as maiores intenções de voto, de acordo com as mais recentes pesquisas eleitorais: Dilma Roussef (PT), José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV).

A análise, apesar de pontual, se faz mais do que necessária. Afinal, o momento eleitoral é decisivo para um país que será o centro das atenções nos próximos anos, como sede da próxima Copa do Mundo e em seguida dos Jogos Olímpicos. É agora o momento em que os eleitores vão escolher quem estará à frente na missão de mostrar ao restante do planeta se o Brasil realmente é o grande destaque do desenvolvimento mundial, apesar de todas suas limitações socioambientais e de infra-estrutura energética.

A partir da pesquisa realizada nos principais meios de divulgação das campanhas eleitorais dos candidatos, a Geração Sustentável constatou que, por enquanto, há mais diretrizes que planos concretos no setor. A alegação dos partidos é de que os programas estão em desenvolvimento com a participação popular, mas algumas propostas já são conhecidas pelos discursos, notícias e diretrizes lançadas nas páginas da internet dos presidenciáveis.

A seguir, é possível verificar diretrizes e os tópicos dos programas de governo dos três candidatos para o desenvolvimento sustentável. Além de Dilma, Serra e Marina, também participam do pleito Ivan Pinehiro (PCB), José Maria Eymael (PSDC), Levy Fidelix (PRTB), Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), Rui Costa Pimenta (PCO) e Zé Maria (PSTU).

Dilma Roussef (PT)
Diretrizes: Desenvolvimento social e econômico a partir de um modelo sustentável. Destaque para as conquistas do governo Lula na área do meio ambiente, como redução e controle da devastação da região amazônica, política de incentivo aos biocombustíveis e exigências ambientais para o financiamento empresarial por vias públicas. Há outros pontos citados no programa de governo que incidem na sustentabilidade, como a promessa de destinação de 2% do PIB (Produto Interno Bruto) para pesquisas científicas e tecnológicas. No documento “13 compromissos de Dilma com o Brasil”, discutido entre o PT e partidos aliados, a candidatura ressalta a defesa do meio ambiente e garantia do desenvolvimento sustentável como uma das metas do eventual governo.
Propostas: Não há propostas específicas para o setor.

José Serra (PSDB)
Diretrizes: Apontam para ações realizadas nos mandatos à frente do Executivo da cidade e do estado de São Paulo. Ênfase na política de resíduos sólidos adotada pelo estado, arborização e criação de parques lineares e na política estadual de controle das mudanças climáticas, as quais promete ampliar ao país. Propõe ainda mais investimento em pesquisa e tecnologia. O PSDB está apresentando gradativamente os termos do programa ao longo das visitas do candidato.
Propostas: Execução da atual política de resíduos sólidos do governo federal, fiscalização via satélite do desmatamento em áreas de floresta e do serrado brasileiro, criação de um modelo de desenvolvimento sustentável para a Amazônia e execução de ações ambientais conjuntas com os municípios.

Marina Silva (PV)
Diretrizes: Pelo fato de ser do Partido Verde, que possui maior direcionamento para as políticas sustentáveis, e pelo histórico de ex-seringueira e ex-ministra do meio ambiente, as diretrizes da candidata têm maior destaque para a área. . O direcionamento dentro do programa está presente nos tópicos “economia para uma sociedade sustentável” e “política cidadã baseada em princípios e valores”. Cita o estimulo a criação de empregos verdes, ao turismo rural e a agricultura sustentável. Também defende investimentos em tecnologia e inovação.
Propostas: Novos padrões de produção e consumo, baseados no incentivo a empresas sustentáveis, planejamento da infraestrutura com base em iniciativas que promovam a redução de carbono, caso dos meios de transporte não poluentes, e maior diversificação nas fontes de geração de energia renovável.


A sustentabilidade para os demais candidatos
Não são só os três candidatos com mais intenções de voto que possuem propostas para o desenvolvimento sustentável. O concorrente José Maria Eymael (PSDC) prevê em seu programa a criação de metas de emissão de carbono, o incentivo a produção agrícola sustentável, a diminuição e erradicação do desmatamento na Amazônia, o incentivo ao reflorestamento, o apoio a iniciativas sustentáveis e a criação de políticas que garantam uma cultura de consumo consciente e responsável.
Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) propõe o fim do desmatamento, a realização de uma auditoria do que chama da “dívida ecológica” criada pelos passivos ambientais das grandes indústrias e do agronegócio, e a utilização do dinheiro do resgate dessa dívida para a pesquisa e transição de matrizes. O candidato ainda se posiciona contra a transposição do rio São Francisco, os transgênicos e a construção da usina de Belo Monte (PA), pontos também defendidos por Zé Maria (PSTU). O concorrente pelo PSTU é favorável à revogação das licenças ambientais que atentam contra a natureza e das matrizes de energia renovável.
O socialista Ivan Pinheiro (PCB) é outro entusiasta da energia limpa. Ele defende ainda a aceleração do programa de utilização do etanol, as pesquisas para biomassa e energias eólica e solar, o reinvestimento das receitas do petróleo para pesquisas em novas fontes, a criação de áreas de desenvolvimento para um modelo autossustentado, a proibição da ocupação de áreas de preservação pela pecuária, a formulação de um projeto para a exploração econômica racional, programas de controle e redução da poluição do ar e incentivo aos transportes ferroviário e aquaviário.
Já o candidato Levy Fidelix (PRTB) carrega a sustentabilidade no carro chefe da campanha: o aerotrem, meio de transporte semelhante ao metrô de superfície com propulsão magnética.
O desenvolvimento sustentável não é citado nos meios de divulgação da candidatura do candidato do PCO, Rui da Costa Pimenta.

Ferramenta de cobrança
Os candidatos às eleições deste ano e os eleitores brasileiros contam com uma ferramenta especial com a qual podem apontar as causas ambientais que deverão ser prioridade no próximo governo. Trata-se da Plataforma Ambiental para o Brasil, lançada pela Fundação SOS Mata Atlântica. De acordo com a ONG, o eleitor poderá cobrar do seu candidato os compromissos que forem registrados no site da entidade. Das cerca de 400 leis ligadas ao meio ambiente que tramitam no Congresso Nacional, a fundação selecionou as mais importantes, envolvendo questões como água e saneamento, Código Florestal, resíduos sólidos e biodiversidade. O trabalho de seleção das leis contou com a participação dos deputados da Frente Ambientalista, na Câmara Federal.
A plataforma estabelece como fundamental que não haja retrocesso na legislação ambiental do Brasil. O país é, atualmente, signatário de quase todos os compromissos internacionais sobre preservação da natureza, como as convenções do Clima e da Biodiversidade. Outro ponto prioritário visa a garantir a participação do cidadão na gestão das águas, por meio de processos transparentes nos comitês de bacias. O Brasil precisa também garantir o cumprimento da agenda de mudanças climáticas, reduzindo as emissões de gases causadores de efeito estufa na atmosfera até 2020, assinalou o ambientalista. Com esse objetivo, deve proceder à efetivação da economia de baixo carbono no país. O documento sinaliza ainda para a necessidade de garantia dos orçamentos de estados e municípios para a questão dos efeitos das mudanças climáticas. O objetivo da iniciativa é dar garantias aos brasileiros de que os problemas ambientais não serão esquecidos no próximo governo, ao mesmo tempo em que estimula nos candidatos a necessidade de dar atenção a esses temas.


Publicado por: Fábio Cherubini - Revista Geração Sustentável - edição 19