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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Edição 36_Gestão Ambiental

Tijolo a tijolo, uma construção mais ecológica



Solo-cimento e bloco reciclado, conheça duas soluções para construção civil que promove menos impactos ambientais que os tijolos convencionais, sem perder a qualidade



A construção civil é uma das áreas mais ricas em inovações que buscam a aplicação de elementos recicláveis ou que cause o menor impacto possível ao meio ambiente. O conceito de sustentabilidade está presente em inúmeras soluções para o setor, da fundação da obra até o acabamento.


Uma das soluções que busca diminuir a agressão ao meio ambiente, sem colocar em risco a qualidade da construção, é o tijolo solo-cimento, também conhecido como tijolo ecológico ou modular. A substituição do tijolo convencional pelo ecológico garante à obra redução de resíduos e de argamassa, além de dar celeridade à construção e diminuir a emissão de gás carbônico.

O tijolo ecológico é composto por cerca de 90% de solo silte arenoso, com 10% de cimento, feito com prensas hidráulicas. Segundo o arquiteto Ricardo Tempel Mesquita, a forma como é curado o tijolo é uma das maiores vantagens para o meio ambiente, pois não há queima. “A enorme vantagem é que o tijolo de solo-cimento é curado a frio, ou seja, não precisa queimar, como é o caso do convencional. Há, dessa forma, uma redução brutal na emissão de CO², proveniente da queima de madeira para a cura dos tijolos convencionais”.

Para a sua produção, a receita, de acordo com o arquiteto, é bem simples, usando solo arenoso, cimento e água. “O solo de tem que ser o silte arenoso, como o macadame, em abundância na natureza. Além disso, não pode haver traços de materiais orgânicos, como a terra preta, que interfere na resistência e qualidade do tijolo de solo-cimento. Ou seja, solo silte arenoso, cimento de boa qualidade e água”.

Segundo a Associação Nacional de Arquitetura Bioecológica (Anab), o setor de construção civil brasileiro é responsável pelo consumo de 40% dos recursos naturais, 34% do consumo de água, 55% de madeira não certificada, além de gerar 67% da massa total de resíduos sólidos urbanos e 50% de volume total de resíduos. É preocupado com os impactos que sistemas construtivos convencionais causam ao meio ambiente que Mesquita se dedica à aplicação de medidas ecológicas e sustentáveis em seus projetos.

Mesquita trabalha com pesquisa e uso do solo-cimento desde 1984, primeiramente estudando o elemento do trabalho de conclusão do curso de arquitetura, pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC). Naquela época, um dos problemas era o tipo de solo usado. O projeto previa a aplicação de argila, que é danosa para o tijolo ecológico, pois ela trabalha com a umidade, podendo até se desmanchar. Isso acabou atrapalhando a ideia do sistema construtivo. Voltei após uma das edições da Feira Internacional de Construção Civil (Feicon), onde vi a apresentação de uma máquina pequena para prensar tijolos. Trouxe a ideia a Curitiba e comecei a trabalhar nela”.

De acordo com o arquiteto, o equipamento possibilitava a produção de blocos de 10 x 20cm. Preocupado com os resíduos provenientes das quebras, devido ao tamanho dos blocos, Mesquita adaptou o sistema para atender medidas fechadas. “Fiz blocos de 12,5 x 25 cm, com 6,5 cm de altura, que me dava um parâmetro métrico, ou seja, a cada 4 blocos dava um metro, a cada 8 de largura também é um metro, a cada 16 blocos no perfil de altura também dá um metro, então coloquei esse parâmetro métrico na relação”.

Devido aos encaixes, o tijolo ecológico oferece mais rapidez na construção, além de eliminar ou diminuir alguns elementos presentes na construção com tijolo convencional, conforme afirma Mesquita, que é especialista em acessibilidade e entusiasta do uso de elementos recicláveis e sustentáveis nas construções. “O sistema de encaixe dá mais celeridade à obra, além de diminuir consideravelmente o uso de argamassa. Além disso, dispensa o uso de madeiras para sustentação e nas caixarias dos pilares, vergas e contravergas. as. Há também redução no uso de ferro”.

Apesar de oferecer uma série de benefícios para o meio ambiente, além de proporcionar agilidade e redução de custo nas obras, o tijolo de solo-cimento não é totalmente livre de impacto ambiental. “O cimento emite CO² durante a sua fabricação, só que numa proporção bem menor do que se usaria, por exemplo, em relação ao bloco de concreto, que usa 3 para 1 de proporção de cimento e areia. O tijolo solo-cimento é de 16 pra 1, então você reduz consideravelmente o uso de cimento que usaria num sistema convencional de bloco de cimento”, pondera Mesquita.

Apesar dos benefícios, a alavancagem do uso do solo-cimento carece de metodologia técnica • O sistema base do solo-cimento não é novo, segundo Mesquita, mas utilizado, em sua essência, em construções milenares, como as babilônicas “Teoricamente, a concepção é a mesma utilizada em construções como as fenícias e persas, que usava um tipo de solo cimento. Aqui a Ilha do Mel, a Fortaleza é construída em um estilo de solo-cimento, só que sem o cimento, obviamente. Na essência, o sistema é o mesmo, com o uso de solo com calcário moído, e em alguns casos gordura ou sangue animal”.

A evolução tecnológica e os estudos de novos elementos é que possibilitam o uso do solo-cimento num sistema mais moderno, com ótimos índices de resistência. “Quando eu estava produzindo os tijolos, fizemos a medição de compressão e dava 7,5 MPa, que é compatível com a resistência dos blocos de concreto. Os tijolos convencionais, de argila assada, se a compressão chegar a 2 MPa já é considerado um ótimo produto. Têm tijolos que dá para quebrar com os dedos. Na há quase nada em termos de ensaios tecnológicos nos tijolos convencionais”, aponta Mesquita.

O arquiteto defende uma análise criteriosa e técnica na fabricação dos tijolos ecológicos, com o objetivo de garantir uma normatização e alavancagem do seu uso. “A fabricação deve ser feita dentro de conceitos técnicos, com ensaio tecnológico do solo, do produto, do prisma, para ver a compressão, os impactos laterais, ou seja, tem que ser cercado de tecnologia, se não vira um produto artesanal sem nenhuma normatização”, alerta.

Segundo Mesquita, o desenvolvimento de uma metodologia na produção dos tijolos ecológicos pode proporcionar ao produto melhor aceitação no mercado e entre os profissionais que atuam no setor de construção civil. “A Caixa Econômica não financia empreendimentos com solo-cimento exatamente porque não existe uma metodologia aplicada. Agora, a partir do momento em que a gente consiga provar que o produto supera o convencional tanto nos aspectos técnicos quanto nos ambientais, daí é natural que a coisa evolua”.

Outro quesito para o aumento do uso do solo-cimento, para o arquiteto, é a própria mudança de consciência dos profissionais da área de construção civil, que devem ser ousados a ponto de aproveitar as tecnologias existentes no mercado, totalmente sustentáveis, amigas do meio ambiente, e que proporcionam redução de gastos nas obras, como o tijolo ecológico, que diminui até o uso de revestimentos.

“Como os tijolos são prensados, temos um parâmetro dimensional constante, de 12,5 x 25 x 6,5 centímetros. Os convencionais até são extrudados no mesmo parâmetro, mas o empilhamento e o assamento faz com que tenha uma inconstância de medida, o que acarreta diferença na parede e gasto excessivo de revestimento, ao passo que no solo-cimento, o acabamento interno que nós usávamos era apenas o gesso, aplicado com uma espátula, resultando em uma película de milímetros. Ou seja, com a série de benefícios dos tijolos de solo-cimento, fazer casas com tijolo convencional é o mesmo parâmetro de retrocesso que você continuar fazendo calçada de pedra lascada. Além de ser um dano ambiental enorme, é um recurso que redunda em muito desperdício de material”, critica Mesquita.

Blocos reciclados, o upgrade do solo-cimento • Se nos tijolos de solo-cimento há inúmeras vantagens do ponto de vista ambiental, com os blocos de materiais reciclados se acentua ainda mais o valor em termos de sustentabilidade ambiental. O processo de produção é similar ao do tijolo ecológico, segundo o engenheiro civil Eliel Lopes Ferreira Junior, presidente do Grupo Bricka, com sede em Piraquara, na região metropolitana de Curitiba, e que atua desde a década de 1970 com desenvolvimento de sistemas construtivos. “Você passa os resíduos coletados em construções em uma moedora, mistura com cimento e pressiona, da mesma forma que os tijolos de solo-cimento”.

Dessa forma, com os blocos reciclados, reduz-se também um dos malefícios das construções convencionais, que é a produção de resíduos, que, conforme dados da Anab, totalizam, na construção civil, 67% da massa total de resíduos sólidos urbanos e 50% de volume total de resíduos. Sendo assim, o que sobra nas construções é recolhido, triturado, incluído na produção de novos blocos, retornando às construções, numa espécie de círculo virtuoso.

No entanto, da mesma forma que os tijolos ecológicos, os blocos de materiais reciclados também carecem de aprimoramento. “Os blocos de concretos para pavimentação e alvenaria obedecem a normas e regras, e a dificuldade que encontramos é atender a essas normas, sem impactar no preço final do bloco”, afirma Lopes.

A contaminação das caliças provenientes das construções faz com que seja necessário aumentar a proporção de cimento, para manter a resistência do bloco próxima a do bloco paver. “Os materiais recolhidos nas obras vêm com muita contaminação, ou seja, com muito material orgânico, que diminui a resistência do produto. Por isso, temos que aumentar bastante a quantidade de cimento, o que aumenta o custo do bloco”.

Óleo, terra e argila são alguns elementos que contaminam os resíduos de construção, que, segundo Lopes, para a reciclagem, deveriam ser separados e classificados em níveis de pureza. “O ideal para a produção dos blocos com proporção razoável de cimento é o resíduo classe A, que é livre de pureza. Hoje, consigo fazer isso com materiais praticamente puros, com um bloco que racha no manuseio, que posso reciclar 100%”.

Para Lopes, a viabilidade do sistema de blocos de materiais reciclados hoje está diretamente vinculada ao apelo ecológico e sustentável que o produto tem. Além disso, uma das soluções para o sucesso da reciclagem no sistema de blocos pode depender de ações governamentais. “Uma das soluções para que seja viável, do ponto de vista financeiro, é implantar e cobrar o uso de regras de separação dos materiais ou trabalhar com um sistema de incentivo tributário, que torne mais atrativo o bloco, bem como uma solução que agrida menos o meio ambiente e que seja sustentável”.

Acesse abaixo a versão digital completa da Edição 36!



Um comentário:

  1. Olá, gostaria de conhecer maiores informações a respeito da ANAB, sou arquiteto atuante utilizando sistemas de bioconstrução, inclusive, uma das imagens publicadas neste artigo, trata-se de um projeto de minha autoria junto a outros parceiros.

    Fico no aguardo de contato,

    Atenciosamente
    João Lucas Neves
    bioarquiteto

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